
O Mouro do Algarve

Penny Jordan



Ainda sobressaltada com o barulho que ouvira, Shelley sai do banheiro enrolada apenas em uma toalha. O quarto estava s escuras. De repente, como que surgido de
sua imaginao, um vulto se delineia na porta aberta. Ela no consegue reprimir o grito.
As luzes se acendem, e Shelley depara-se com Jaime. Instintivamente, recua um passo e a toalha cai... V o brilho sensual que surge nos olhos dele. No h mais como
fugir. Aquele homem  seu marido e, agora que a encontrou, ir exigir-lhe a noite de npcias!








Digitalizao: Rita Cunha
Reviso: Cris Bailey
Formatao: Rita Cunha

Copyright: Penny Jordan
Ttulo original: Passionate Relationship
Publicado originalmente em 1987 pela
Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Traduo: Vera Onoruto
Copyright para a lngua portuguesa: 1989
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria de Lima, 2000 - 3 andar
CEP 01452 - So Paulo - SP _ Brasil Caixa Postal 2372

CAPITULO I


   Guiando o velho Citroen de Londres at Portugal, Shelley procurou manter-se dentro dos limites de velocidade. Agora que faltavam somente cinqenta quilmetros,
ela mal podia controlar a tentao de pisar no acelerador. De sbito, sentiu uma profunda tristeza. Se tivesse feito aquela viagem alguns meses antes...
   Aos vinte e quatro anos, ela no tinha grandes esperanas ou ambies, mas a descoberta da verdade havia sido uma emoo terrvel, deixando-a em estado de choque.
   J era quase meio-dia; o sol de agosto lanava sombras na estrada poeirenta quando atravessou mais um lugarejo. Embora j tivesse vrias vezes passado frias
no continente, era a sua primeira visita ao Algarve. Tudo estava sendo bem diferente do que esperava. Fizera a viagem pelo interior, detendo-se para observar a beleza 
das pequenas propriedades, com sua videiras e rvores frutferas, cuidadas por homens curtidos pelas intempries e por mulheres vestidas de preto. Comera em restaurantes 
situados em pequenas praas e ficara encantada com o carinho e ateno de todos.
   O Algarve era uma terra que h muito tempo atrs foi ocupada pelos mouros, que lhe imprimiram o cunho de sua civilizao. Dali nasceu uma raa de aventureiros 
do mar que criaram um imprio para si.
   Pensando sobre o que lera a respeito do pas, tentava controlar o nervosismo que sentia. Nervosa, ela? Shelley riu, pensando em como as suas colegas de trabalho 
ficariam surpresas se a encontrassem naquele momento.
   Sabia que no trabalho tinha a reputao de ser fria e decidida. Controlada e retrada demais aos olhos de muitos. Uma das professoras da universidade uma vez 
lhe dissera que ela tinha medo de se relacionar com as pessoas e estava sempre prevenida contra elas. Aps a formatura, escolhera deliberadamente uma grande organizao, 
ao invs de uma firma pequena, desejando o anonimato que um lugar assim poderia lhe proporcionar; necessitava disso para preservar o sistema de defesa que criara 
para si.
   Progredira com rapidez e fora promovida a chefe do departamento responsvel por todos os contatos da companhia no exterior. J viajara a negcios para a Austrlia, 
Estados Unidos e at mesmo para o Extremo Oriente; contudo, nenhuma dessas viagens lhe proporcionou um dcimo do estado de excitao e ansiedade que sentia agora. 
Mas tambm essa viagem era diferente. Era uma viagem ao passado, para encontrar a famlia que, h quatro semanas atrs, nem sabia possuir.
   Mesmo naquele momento, mal podia acreditar na frgil cadeia de coincidncias que a trouxera at ali. Se no tivesse recusado o convite de Warren Fielding, e decidido 
passar o domingo na sala de leitura do museu local, no teria visto o anncio, e nunca saberia a verdade.
Atravs dos anos, vrios homens tinham demonstrado interesse por ela, embora no pudesse compreend-los direito. Sentia-se to desinteressante e comum... Era alta, 
possua cabelos castanhos e fartos, com reflexos acobreados. Sua pele clara e os olhos esverdeados imprimiam-lhe, porm, uma rara beleza.
   Como desde cedo se convencera de que nenhum homem gostaria de se casar com ela, tambm no sentia necessidade de impressionar o sexo oposto. Assim sendo, escolhia 
suas roupas e maquiava-se de acordo com suas necessidades; jamais para agrad-los.
   Shelley no entendia como alguns homens pareciam achar a sua indiferena um desafio. Warren Fielding era um dos mais persistentes. Era americano e cada vez que 
vinha a Londres a procurava, e ela descobrira que a melhor defesa contra os convites insistentes era simplesmente nunca estar em casa, recusando-se a atend-lo pelo 
telefone.
   Seu crculo de amigos era muito restrito, composto apenas de moas com quem estudara em Oxford, quase todas casadas ou trabalhando no exterior. Por isso, encontrava-se 
s naquele domingo, na sala de leitura de um museu.
   No sabia por que resolvera dar uma olhada na coluna de classificados... jamais poderia esquecer o choque que tivera ao ler seu nome no jornal. Lera e relera 
o anncio, imaginando por que um escritrio de advocacia, e principalmente com um nome to pomposo como Macbeth, Rainer & Buccleugh, pretenderia entrar em contato 
com ela.
   Esperara at a quarta-feira da semana seguinte antes de telefonar para aquele nmero de Londres, no querendo admitir a prpria curiosidade. Marcaram uma entrevista 
para a tarde do mesmo dia e, ao contrrio do que esperava, descobrira que Charles Buccleugh era relativamente jovem, beirava os quarenta anos, tinha um sorriso encantador 
e uma escrivaninha cheia de fotos de famlia.
   Quando mencionara o nome do pai, seu primeiro impulso fora o de se levantar e sair da sala. Tivera de controlar-se. H anos atrs convencera-se de que havia milhares 
de crianas iguais a ela.
   Soubera pela av a histria triste e comum do casamento dos pais. Sua me casara-se contra a vontade da famlia; no havia sido nenhuma surpresa que o casamento 
tivesse acabado daquele modo. Era o que sua av sempre lhe contara. Assim que ele soubera da gravidez, comeara a negligenciar a jovem com quem se casara. Desaparecia 
por semanas a fio, dizendo que estava procurando emprego. A av j havia previsto isso e dizia que fora uma graa de Deus o av no ter presenciado o desenlace desastroso.
   Shelley sabia que o av morrera antes do nascimento dela e que o pai abandonara a me, deixando-a sozinha aos dezenove anos.
   Desde o incio do casamento, a av insistira para que viessem morar com ela, pois no podia permitir que a filha fosse arrastada para um apartamento minsculo 
e sem conforto. O pai s se interessava pela pintura. No fazia nenhum esforo para procurar um emprego decente. O desaparecimento dele causara um forte desgosto 
 me. Ficara seis semanas em estado de choque; a menina nascera prematura e ela morrera de parto. Quatro semanas depois, a av ficara sabendo da morte do pai da 
menina num acidente de carro. Contando-lhe esses fatos, aconselhava a neta a no ceder seu corao a homem nenhum.
- No meu tempo, as mulheres tinham que se casar - dizia ela. - Mas com voc  diferente. Tem uma escolha. No quero que voc sofra.
    medida que crescia, Shelley foi descobrindo que o casamento dos seus avs no fora feliz. O av tivera um caso durante os primeiros anos do casamento e isso 
havia sido suficiente  para estragar a relao para sempre.. De qualquer forma, a amargura da velha e o desaparecimento dos pais deixaram marcas profundas na menina. 
Mas, naquele instante, diziam que o  pai no morrera, e que durante os ltimos oito anos tentara desesperadamente encontr-la.
   A histria revelada por Charles Buccleugh era quase fantstica demais para ser verdade. Ao contrrio do que a av lhe contara, seu pai realmente procurava emprego 
e acabara encontrando um em Londres. Escrevera para a esposa, me de Shelley, dando a boa notcia e que estava voltando para busc-la.
   Fora nessa viagem de volta que sofrer o acidente. Ficara muito ferido, to mal que no pde revelar aos mdicos e enfermeiras que era casado. S ficaram sabendo 
quando pde contar tempos depois.
   Ajudaram-no a escrever uma carta para a esposa, informando-a do que lhe acontecera, mas a resposta veio atravs da av, contando-lhe que a esposa e a criana 
estavam mortas.
   O estado de sade dele era grave, no poderia deixar o hospital e viajar para casa. Uma semana depois, recebera outra carta da sogra, avisando-o de que ela cuidara 
dos funerais e que no queria mais v-lo.
   Dilacerado pela dor, ele podia entender que ela devia culp-lo pela tragdia; aos poucos, comeou a refazer a sua vida. Sempre quisera ser um artista e com o 
dinheiro que recebera do seguro devido ao acidente, viajou para Portugal para dedicar-se  pintura.
   Anos depois, novamente casado com uma viva, me de dois filhos do primeiro casamento, tornou a encontrar-se com uma pessoa de sua cidade natal, que passava frias 
no Algarve. E fora por intermdio desse amigo que ficara sabendo da existncia da filha. Nesse nterim, porm, a av j havia falecido, e Shelley passava por uma 
sucesso de orfanatos. Apesar de todos os esforos, no conseguira reencontr-la.
   Mas, naquele instante ele j estava morto; o seu ltimo desejo havia sido de que ela fosse descoberta e era este, ento, o motivo do anncio.
   - H uma herana para a senhorita no testamento - disse-lhe Charles Buccleugh. - Mas ter de entrar em contato com os advogados portugueses para obter maiores 
detalhes. Estamos apenas seguindo as instrues do seu meio-irmo, o conde Jaime Y Felipe de Hilvares, para encontr-la.
   Surpreendeu-se um pouco diante do ttulo, mas evitou demonstr-lo. Sob a sua calma exterior diante do advogado, ainda no podia aceitar o fato de sua av ter 
deliberadamente ocultado a verdade. Sabia que a av era uma pessoa amargurada que no gostava do sexo oposto, mas descobrir que ela mentira a respeito da morte de 
seu pai era algo que lhe fugia  compreenso.
   - Tantos anos perdidos...
   Sem perceber, falara alto, ao passar por um outro vilarejo. Havia ento uma bifurcao na estrada  sua frente; uma delas descia de encontro ao mar, que brilhava 
sob o sol escaldante. A outra subia o morro. Era este o caminho que deveria seguir, que a levaria  casa do conde e, decerto, aos demais membros da famlia. A sua 
famlia.
   Todos aqueles anos desejara ter uma famlia, achando que estava desejando o impossvel, quando na realidade... Uma outra pessoa teria chorado pelo que sua vida 
poderia ter sido, mas Shelley no era assim.
   Quando era criana, sentia que, aos olhos da av, ela estava marcada pelo sangue do pai e desde cedo aprendera a esconder seus sentimentos e a dor. O que sentia 
agora no podia aliviar com lgrimas.
   Pensava em tudo o que perdera; anos de convvio com o pai e que agora no eram mais possveis. No estava interessada no que ele lhe deixara no testamento. No 
era esse o motivo que a trouxera a Portugal. O que ela queria era ouvir falar dele.
   Ser que o pai tambm sentira essa angstia que a dominava? Uma mistura de amargo ressentimento e compaixo pela mulher que deliberadamente os separara.Uma placa 
indicava a direo que devia tomar, e a estrada passava entre os vinhedos. O seu meio-irmo era um produtor de vinho. Essas terras deviam ser suas. Tudo o que sabia 
a respeito da segunda famlia do seu pai, era que o enteado era mais velho que ela e a enteada mais nova. Ficou surpresa ao descobrir que a madrasta era descendente 
de ingleses. Que tipo de mulher seria ela, que se apaixonara por  um conde portugus e por um artista ingls pobre? De sbito, teve um pensamento desagradvel. Ser 
que o seu pai se casara por dinheiro? Procurou afastar essa idia da cabea. J no decidira que era tolice ficar imaginando coisas sem fundamento? No sabia nada 
sobre a famlia do pai ou da sua vida em Portugal, exceto o fato de ele ter continuado a pintar. Essa informao lhe fora fornecida por Charles Buccleugh.
   Os advogados lhe informaram que o meio-irmo desejava que ela fosse  sua casa. Achou o pedido um tanto autoritrio mas, como tinha direito a alguns dias de frias, 
no via razo para recusar. E se notasse alguma incompatibilidade entre ela e a famlia, simplesmente entraria em seu carro e voltaria para casa.
   O medo e a ansiedade que sentia eram emoes desconhecidas para ela. Em geral, no se permitia o luxo de ficar nervosa, mas agora o seu autocontrole havia desaparecido. 
Junto  curva do morro via-se uma construo cujas paredes brancas e telhados avermelhados formavam um belo contraste; Shelley a achou linda e muito pitoresca. O 
impacto daquela viso foi to forte que teve de fechar e abrir os olhos vrias vezes para assegurar-se de que no estava sonhando. As videiras chegavam at o muro 
que cercava a casa e os jardins e, embora fosse impossvel quela distncia, poderia jurar que ouvira o som das guas caindo de uma fonte. Em sua imaginao, podia 
ver os ptios que eram comuns nas construes mouriscas, sentir o aroma forte do caf e o gosto adocicado dos bolinhos to apreciados por esse povo.
   A vista parecia-lhe to familiar que no podia crer que nunca a vira antes. Mas era apenas imaginao. Pegou a bolsa para verificar o cabelo e a maquiagem. O 
rosto que via no espelho estava como sempre; a expresso levemente distante e retrada, o cabelo farto e bonito. Era normal que seu corao comeasse a bater acelerado 
ao voltar a ligar o motor do carro, mas como no estivesse acostumada a isso, sentia-se ainda mais assustada. Uma estrada irregular e sem calamento a levou at 
a casa. O muro rodeando a construo era mais alto do que imaginava. O porto de madeira que protegia a entrada estava aberto e, quando Shelley passou por ele, ouviu 
o som da gua. Ento no estava enganada.
   Vista de perto, a casa parecia-lhe maior. Ouviu um cachorro latindo, quebrando o silncio da tarde. Chegara na hora da sesta. Com o motor parado, o calor no interior 
do carro tornou-se sufocante. Ao sair, observou o arco da porta  sua frente. Era no mesmo estilo da entrada que acabara de transpor, e imaginava que deveria levar 
a um ptio interno, to apreciado pelos mouros.
   O rudo dos cascos de um cavalo se aproximando atraiu-lhe a ateno. O sol batia-lhe nos olhos quando se voltava para olhar o cavalheiro. Teve a impresso confusa 
de ver um homem alto, de cabelos escuros, montado num cavalo magnfico, antes de ser forada a fechar os olhos diante da claridade. Antes de reabrir os olhos, ambos 
desapareceram nas sombras.
   Colocou os culos de sol e olhou novamente para o local onde o homem fora; segundos depois ele postava-se  sua frente, ainda montado.
   -  a srta. Howard?
   Quem quer que fosse, falava um ingls perfeito, embora a sua voz fosse cheia de sarcasmo. Nunca fora de deixar passar um desafio sem revidar. Ergueu a cabea 
e, falando com o tom mais frio possvel, respondeu:
   - Sim, sou eu. E o senhor?
   - Seu meio-irmo. Jaime y Felipe de Hilvares, mas pode chamar-me de Jaime. - Enquanto falava, desceu do cavalo, e vindo da casa surgiu um criado que pegou as 
rdeas para levar o animal.
   Ele disse algo em portugus e sua voz tornou-se mais suave e mais amvel do que quando falara com ela. O rosto do criado abriu-se num sorriso.
   - Sim, excelentssimo... sim.
   Sem querer, sentiu um choque. Naturalmente sabia que o meio-irmo tinha um ttulo de conde, mas aquele tratamento era algo que no esperava.
   Parecia arrogante, pensou, ao observ-lo disfaradamente, procurando dominar a impresso de ter entrado de repente em territrio desconhecido e hostil. Decidiu 
que no iria deixar que isso a colocasse em desvantagem. Se o seu meio-irmo queria ser arrogante e trat-la com desdm por ela no ter um ttulo, logo descobriria 
que no se acovardava facilmente.
   - Est muito quente aqui fora, Jaime; eu fiz uma longa viagem, estou cansada...
   -  verdade, mas voc parece muito bem. - Olhava para ela atentamente. Seus olhos acinzentados observavam seu corpo esbelto vestindo jeans e blusa branca. - Sentimo-nos 
honrados que tenha resolvido finalmente fazer uma visita. E fez bem em lembrar-me de que no estou sendo corts em mant-la aqui fora no sol. Por favor, queira seguir-me.
   Sua voz estava novamente cheia de ironia, quando se aproximou dela. Os modos dele sugeriam que estava se controlando e que sob a superfcie educada existia uma 
antipatia que procurava disfarar. Mas por que haveria de antipatizar com ela? A luz bateu no rosto dele, revelando pela primeira vez seus traos, que eram outra 
herana da ocupao dos mouros no Algarve. Jaime tinha a pele bronzeada, enquanto a dela era muito clara. Sentiu-se intimidada ao lado desse homem de cabelos escuros 
e pele dourada, e tambm pequena e frgil. No esperava que ele fosse to alto. Os ombros largos e corpo musculoso s ressaltavam essa impresso. Quando o viu andar 
at a porta, Shelley notou sua elegncia.
   - Pensei que quisesse entrar por causa do calor... - Olhava para ela e sua expresso era educadamente distante, mas a sua boca o denunciava. O choque ao notar 
essa antipatia afastou o seu embarao ao ser apanhada observando-o.
   O ar distante, at poderia aceitar e compreender. Alis, ela tambm agia dessa forma com estranhos. Mas, e o desprezo? Sabia que a maioria das pessoas a admirava 
e respeitava. No trabalho, j enfrentara homens que diziam desprezar as mulheres em geral, mas o seu modo de agir acabava convencendo-os de que no se deixaria influenciar 
por essas tticas antifeministas. Alis, Jaime no parecia ser contra as mulheres, no estava tentando provar a superioridade masculina. Mas, desprezava-a. Vira 
isso com clareza nos olhos dele. Por qu?
   Seguiu-o at o hall. As venezianas estavam fechadas para afastar o calor do sol e, momentaneamente cega, ela tropeou e ele instintivamente a segurou.
   Sob o tecido da camisa os msculos estavam rgidos. Sentiu naquele toque todo o desprezo que ele parecia sentir. Mesmo assim, ajudou-a a equilibrar-se.
   Talvez no tivesse gostado do seu aspecto, pensou Shelley enquanto seus olhos se habituavam  pouca luz. Talvez... Mas o que lhe importava o fato de ele no gostar 
dela? Viera com um nico propsito: descobrir coisas sobre o seu pai. A herana era secundria e desinteressante. Ela no tinha uma fortuna igual a do seu meio-irmo, 
mas um bom emprego, que lhe bastava para sobreviver desde que deixara Oxford. Gostava e sentia-se orgulhosa da sua independncia financeira. Ficaria contente com 
qualquer coisa que o pai lhe deixasse, porque significava que gostava dela, mas no pelo valor monetrio.
   Havia vrias portas no hall. Quando ele abriu uma delas, explicou que a parte principal da casa fora construda em torno do ptio interno, e que a maioria dos 
quartos tinham vista para esse agradvel osis.
   - Atravs dos anos, foram construdos ptios menores para satisfazer as necessidades da famlia.  costume, aqui em Portugal, vrias geraes morarem na mesma 
casa. Herdei-a do meu pai quando atingi a maioridade, mas naturalmente minha me e minha irm moram comigo.
   - E meu pai...
   Houve uma pequena pausa, antes dele responder friamente.
   - Ele tambm ficava aqui s vezes, embora preferisse a prpria casa, que fica  beira-mar.
   O constrangimento em sua voz deixou Shelley intrigada.
   - Essa casa...
   - Vejo que est ansiosa para descobrir a situao financeira do seu pai, srta. Howard - disse ele rspido, tornando evidente que, embora lhe tivesse dado permisso 
para usar seu nome, preferia manter uma fria distncia entre eles no usando o dela. - Mas esses assuntos devem ser discutidos com o advogado de Lisboa. Eu j providenciei 
para que viesse amanh discutir os assuntos referentes ao testamento do seu pai. Agora, peo licena para me retirar. Vou mandar a criada acompanh-la at o seu 
quarto. Ela lhe levar um refresco. Aqui ns jantamos mais cedo do que na Espanha. Em geral, s oito horas. Lusa lhe dir.
   J se afastava dela, que mal podia acreditar que de fato ia deix-la sozinha. Descobriu que se sentia mal naquele ambiente estranho, embora fosse lindo.
   - Sua me e sua irm...
   - Saram para fazer compras, mas estaro de volta para o jantar.
   Olhou para o seu rosto e sorriu quase com crueldade.
   - O que h? Certamente no esperava ser recebida com uma banda de msica. Devo dizer que admiro a sua... coragem, srta. Howard. No so todos os filhos que se 
dignam visitar a casa do pai somente  procura de lucros financeiros. Quando eu penso nas tentativas dele para encontr-la... sua dor... - Engoliu em seco e, alm 
do choque pelo falso juzo que ele fazia a seu respeito, mais uma vez Shelley teve a impresso de uma raiva sendo mantida sob controle. - No, voc no  bem-vinda 
em minha casa. No vou fingir. Pelo amor e respeito que tinha pelo seu pai, estou disposto a fazer com que os desejos dele sejam cumpridos. Minha me no est aqui 
para receb-la porque ela ainda est sofrendo muito pela perda. Seu pai foi a pessoa mais importante da vida dela. Por que no veio antes, quando ainda estava vivo? 
Foi apenas a herana que a trouxe, no  mesmo?
   Lanou a pergunta de maneira violenta, e ela ficou to aparvalhada que nem pde responder e ele deixou-a abruptamente. Parada ali na sombra, Shelley sentiu um 
arrepio. Ento sabia o motivo do desprezo dele! Pensava que... Respirou fundo, pensando se deveria cham-lo e contar-lhe a verdade, mas estava to cansada, sentia-se 
to fraca e abalada, que preferiu deixar para mais tarde.
   Teria dado qualquer coisa para sair dali e nunca mais voltar, mas devia ficar pela memria do pai. Encarando as coisas pelo ponto de vista do seu meio-irmo, 
talvez ele e a famlia tivessem boas razes para pensar de tal modo, mas poderiam ter-lhe dado o benefcio da dvida. Poderiam ter esperado at conhec-la... A teimosia 
e o orgulho que herdara de sua av aconselhavam-na a partir naquele momento e ignorar a herana do pai, mas j estava muito envolvida para sair sem cumprir sua misso.
   Viera para Portugal com uma finalidade, que era a de descobrir coisas sobre o pai, de cuja existncia s soubera recentemente. No deixaria que o seu meio-irmo 
arrogante ou a sua famlia a impedissem de faz-lo. Podiam pensar o que quisessem sobre ela, mas estava disposta a esclarecer que no fora a ganncia que a levara 
at l, mas somente o desejo de ouvir falar a respeito do pai. Silenciosamente, uma jovem aproximou-se dela.
   - Meu nome  Lusa - disse-lhe com um sotaque encantador. - Quer que eu a acompanhe at o seu quarto?
   - Sim, por favor.


CAPTULO II

   Shelley no compareceu ao jantar s oito horas, mas no foi proposital. J eram mais de dez horas quando finalmente acordou de um sono agitado. Olhou em volta 
e sentiu um aperto no estmago, uma sensao de desespero.
   Viera para Portugal com tantas esperanas! Com idias tolas e romnticas. Comeava a achar ridculo o seu desejo de encontrar uma famlia. A espcie de famlia 
que sempre sonhara ter, irmos, irms, tias e primos, como ouvira tantas vezes as amigas contarem. A famlia que aps a morte da sua av ela fingia no precisar.
   Os sonhos custavam a morrer, mas tinha de reconhecer que o seu terminara naquela tarde. No era bem-vinda a Portugal. Mesmo quando os mal-entendidos quanto s 
suas razes para vir ao Algarve estivessem resolvidos, ela ainda no seria aceita. O seu orgulho exigia que no deixasse a propriedade enquanto no explicasse a 
Jaime exatamente porque viera e que, depois disso, ignorasse os pedidos de desculpas dele.
   Alis, ele no era o que esperava de um meio-irmo. Era impossvel imagin-lo como um irmo carinhoso. Sentiu um arrepio ao lembrar a maneira desdenhosa como 
a olhava. Pela janela podia ouvir os grilos no jardim e o ar quente da noite movia as cortinas fazendo-a lembrar-se de que estava num pas estranho. Estava tensa 
demais para conseguir voltar a dormir. As suas malas estavam sobre uma cmoda. Algum tirara as roupas enquanto dormia. Abriu o armrio e apanhou um vestido branco 
de algodo.
   Saiu do quarto e conseguiu chegar sem dificuldades  escada, mas quando chegou ao hall ficou confusa, sem saber qual seria a porta para a cozinha. Ao acordar, 
sentira a garganta seca e precisava beber alguma coisa. Os anos passados nos orfanatos tinham-na ensinando a proteger-se contra as ofensas e o sofrimento causados 
pelos outros. J fazia muito tempo que ningum a magoava, e ainda mais tempo que no chorava. Mas hoje chegara bem perto dessas duas coisas.
   Teve um sobressalto ao ver o seu anfitrio vindo em sua direo.
   - Afinal decidiu nos dar a graa da sua presena.  uma pena que no tenha vindo para o jantar.
   A insolncia e o desprezo em sua voz afastaram as boas intenes de no deixar que a provocasse.
   - Por que deveria? Voc sabe exatamente por que estou aqui, e como deixou bem claro, no existe necessidade de gentilezas entre ns.
   Notou que aquelas palavras atingiram-no fortemente. Ele enrubesceu, decerto de raiva e no de embarao; seus olhos brilharam. Lembrou-se de ter lido que os portugueses 
descendentes dos mouros eram pessoas muito orgulhosas e corretas e achava que no gostara da crtica  hospitalidade.
   Animada pelo sucesso, acrescentou.
   - Obviamente voc  um homem inteligente, Jaime, para ser capaz de avaliar e analisar as reaes das pessoas antes mesmo de conhec-las.
   Desta vez ele j conseguira controlar-se. A sua voz era sarcstica quando respondeu:
   - Voc me lisonjeia. No seu caso no foi necessrio usar muita inteligncia. Bastou olhar para os fatos. Uma filha que se recusa a ver o pai e somente aparece 
aps a sua morte, quando milagrosamente descobre que lhe deixou algo de valor, e que no teria se dado o trabalho de vir, se eu no tivesse insistido. Por que nunca 
procurou encontrar seu pai? Enquanto era criana, posso entender que obedecesse aos desejos da sua av, mas depois do falecimento dela... Soube pelos advogados que 
tinha quatorze anos nessa ocasio e, certamente, deveria sentir curiosidade a respeito do pai, vontade de v-lo.
   Seu corao batia to acelerado que tinha dificuldade em respirar. Era evidente que Jaime no conhecia a verdade, que a sua av a fizera acreditar que o pai estava 
morto. Mas o mesmo orgulho e teimosia que a ajudara a suportar tanta coisa durante a infncia, agora no permitia que pedisse a compreenso desse homem.
   Ao invs de contar-lhe tudo, ela disse secamente:
   - Por qu? - O desprezo que via nos olhos de Jaime aumentou sua raiva, empurrando-a alm da barreira da lgica e da cautela a ponto de dizer-lhe com a voz cheia 
de emoo. - E com que direito se atreve a me criticar? Voc no sabe nada a meu respeito, nem dos motivos que me trouxeram at aqui. Voc  incrvel. Tem a arrogncia 
de criticar-me e de condenar-me sem mesmo saber o que aconteceu. - Seus olhos pareciam enormes no rosto plido demais. A violncia das suas emoes esgotavam suas 
ltimas reservas de energia. Estava tremendo, tal a intensidade do que sentia. Sabia que no era adversria para esse homem, nem fsica nem emocionalmente, mas estava 
decidida a enfrent-lo. - No vou ficar nem mais um minuto nesta casa! - falava alto agora, havia perdido todo o controle. - Vou embora agora!
   Virou-se rapidamente, esquecendo a sede e com um nico desejo: abandonar aquela casa o mais depressa possvel. Todavia, foi impedida de afastar-se por dedos fortes 
que seguraram-lhe o brao.
   - Fique quieta!
   Voltou-se para ele com averso e foi obrigada a ficar imvel, quando subitamente viu uma senhora surgindo da porta por onde ele viera.
   - Jaime, querido, o que est acontecendo?
   Falava em portugus mas, mesmo assim, Shelley podia adivinhar que essa mulher de cabelos claros no era portuguesa. Ento essa era a esposa do seu pai... sua 
madrasta. Ao olhar para aquele rosto delicado e frgil, viu muito sofrimento. Sim, essa mulher amara o seu pai. Uma inesperada dor apertou seu corao ao ver aqueles 
olhos azuis cheios de preocupao. A mulher olhava-os interrogativamente.
   - A srta. Howard quer nos deixar - disse ele secamente. - Eu estou tentando demov-la dessa idia, pois o vilarejo no tem nenhum hotel e, alm disso, o advogado 
vir amanh cedo para conversar sobre o testamento do pai dela.
   Pela primeira vez a sua madrasta a encarou.
   - Ento voc  a filha de Phillip. Seu pai... - os olhos encheram-se de lgrimas e Jaime soltou o brao de Shelley e foi para junto da me. Vendo o contraste 
entre a maneira com que se dirigira a ela, Shelley sentiu o ressentimento aumentar.
   Ansiava por dizer que no era justo. Que no fora responsvel pelo afastamento do seu pai. Que ela tambm sofrer, mas a prudncia e a dor impediam-na de falar. 
No queria revelar a sua vulnerabilidade diante desse homem. Ele se regozijaria ao v-la sofrer. Viu a porta abrir-se novamente e uma jovem aproximou-se. Os laos 
portugueses eram menos evidentes em sua meia-irm do que em Jaime, mas possua o mesmo cabelo preto e pele morena.
   Jaime disse-lhe algo em portugus e, olhando rapidamente para Shelley, ela afastou-se levando a me.
   - Eu no a aconselho a partir esta noite - disse Jaime com frieza aps a sada da me e da irm. - Naturalmente, se insistir, no tenho meios de impedi-la. Mas, 
como j mencionei, o advogado estar aqui amanh e tem muitas coisas a lhe dizer.
   - E eu tambm tenho muitas coisas para dizer a ele. - falou Shelley com violncia. - Muito bem, excelentssimo - disse o ttulo com sarcasmo. - Ficarei at falar 
com ele, mas acredite-me, aceitar a sua hospitalidade  um sacrifcio enorme para mim.
   Antes que ele pudesse retrucar, Shelley virou-se rapidamente e subiu a escada. Ainda tinha sede, mas preferia morrer antes de pedir-lhe um copo de gua. Como 
o odiava!
   J estava deitada, quando ouviu uma leve batida na porta. Ficou tensa enquanto ela se abria.
   A ltima coisa que esperava ver era o seu meio-irmo trazendo uma bandeja com ch e sanduches. Olhou espantada enquanto ele a colocava sobre a mesa-de-cabeceira.
   Notou o seu espanto e disse com ironia.
   - Voc pode no ser bem-vinda, mas no costumamos deixar os nossos hspedes morrerem de fome.
   Sentiu gua na boca ao pensar na xcara de ch, mas apenas disse um frio "obrigada". Alis, estava to surpresa que no conseguiria dizer outra coisa. Pensar 
que ele fora capaz de providenciar algo para ela comer e beber, depois da discusso que tiveram, surpreendeu-a. Mas talvez o seu temperamento latino estivesse mais 
acostumado a essas cenas do que ela. Entretanto, Jaime no lhe pareceu uma pessoa temperamental, longe disso. A primeira impresso fora a de um homem frio e controlado.
   - Minha me pede desculpas por no ter vindo cumpriment-la, mas como deve ter notado, ainda est sofrendo muito com a morte do seu pai.
   - E eu no, voc quer dizer.
   A hostilidade estava novamente presente. Seus olhos refletiam o seu desprezo quando se inclinou em sua direo, apoiando-se sobre o colcho.
   - Voc  quem disse isso, no eu - falou com frieza. - Mas j que falou, aproveito para ressaltar que a sua falta de sentimentos  um tanto... estranha.
   Shelley poderia lhe dizer que chorara muito pelo pai durante todos esses anos, e mais ainda ao saber a verdade. Mas a sua dor era uma coisa particular. Poderia 
lhe dizer tambm que, ao contrrio da madrasta, ela no tinha em quem se apoiar, ningum para confort-la. Ao invs disso falou com sarcasmo.
   - Estou surpresa em ver que existe algum ou alguma coisa que possa perturb-lo, Jaime, e ainda mais tratando-se de algum to insignificante e indigna como eu.
   - Indigna, talvez, mas nunca insignificante.
   Shelley prendeu a respirao e seu corao bateu mais rpido. Ele estava insinuando que a achava desejvel? Ora, claro que no! Impossvel! Sem motivo algum ela 
sentiu-se embaraada pelo fato de estar na cama, de camisola, embora fosse um modelo simples e sbrio, sem a mnima pretenso de ser provocante. Por um momento, 
inexplicavelmente, imaginou como seria ser abraada por ele e sentir aqueles lbios msculos acariciando os seus. Chocada com a direo que os seus pensamentos estavam 
tomando, recuou um pouco, olhando-o assustada.
   Como se a sua mente tivesse captado os seus pensamentos, Jaime levantou a mo e tocou seu rosto. A sensao dos dedos em sua pele fez com que recuasse mais e 
ele pareceu divertido com a reao dela.
   - Desagradvel, no ? Mas a natureza gosta de nos pregar peas. No meu papel de enteado do seu pai, eu a desprezo e no gosto de voc como filha dele. Mas, como 
homem, no posso evitar de sentir um desejo incrvel de descobrir se todo esse calor e temperamento que demonstra ter estariam presentes se estivssemos juntos na 
cama. Mas no se preocupe. Para o nosso bem, pretendo assegurar-me de que nenhum de ns venha a fraquejar diante de um desejo proibido.
   Ser que ele a desejava realmente ou estava somente tentando intimid-la? Observou-o sem dizer nada. Jaime levantou-se e foi at a porta. Poderia ter dito milhes 
de coisas a ele. A mais importante seria negar que sentira algum desejo, embora inexplicavelmente no lhe dissera nada.
   Dormira muito mal e sentia-se cansada. Estava diante do espelho e pensava que roupa deveria usar para o encontro com o advogado. A roupa era importante. Aprendera 
no mundo dos negcios que era impossvel errar, ao julgar a pessoa pela sua maneira de vestir. Se estivesse na Inglaterra no teria problemas. Um dos tailleurs que 
usava para o trabalho seria o ideal, mas no trouxera nenhum.
   Agora que encontrara o seu terrvel meio-irmo, vira que fora um erro. Se ele a tivesse encontrado vestindo um tailleur elegante e caro, ao invs da simples jeans 
e blusa de algodo, ele no teria se atrevido a falar daquela maneira ofensiva com ela.
   Passava um pouco de blush quando notou que sua mo no tremia. Com a manh, voltara a ter o seu autocontrole normal. Alis, no podia entender a exploso emocional 
da noite anterior. Decerto fora motivada pelo cansao e pelo choque dos ltimos acontecimentos. Compreendia agora que a reao da famlia do seu pai no poderia 
ter sido diferente. Quando Jaime a acusara de que o seu motivo era a ganncia, ele no percebia que o seu julgamento errado despertava suspeitas sobre os seus prprios 
motivos, que poderiam no ser assim to inocentes.
   Era evidente que, se o pai lhe deixara algo isto significava que alguma coisa no ficaria com a famlia. Mas certamente, com toda a fortuna de Jaime, no poderiam 
lhe negar uma pequena lembrana que o pai quisesse lhe deixar.
   Algumas pessoas ricas eram conhecidas por sua sordidez, mas o fato de Jaime dizer que a desejava... sua mo tremeu novamente. Sem dvida dissera aquilo apenas 
para desarm-la. Um homem bonito como ele, com toda aquela sensualidade, no devia ignorar o efeito que provocava no sexo oposto. Com certeza estava se divertindo 
ao fingir que sentia desejo por ela.
   Ao ouvir que batiam  porta, sentiu um sobressalto, mas era somente a criada que viera buscar a bandeja do caf.
   - O sr. conde pede para avis-la que o sr. Armandes estar aqui dentro de meia hora.
   Shelley esperou que ela fosse embora, antes de continuar a vestir-se. O quarto tinha duas janelas grandes. Uma dava para o morro coberto de videiras, a outra 
para o ptio interno. Poderia ter tomado o seu caf no terrao que dava para o ptio, mas de propsito ficara no quarto. No desejava ficar l e ser observada por 
Jaime, pois vira a mesa posta para o caf.
   Recusava-se a sentir-se ofendida por no a terem convidado para tomar o caf da manh com a famlia. No queriam receb-la. Muito bem. Eles  que sairiam perdendo, 
no ela. No precisava deles e, se queriam tirar concluses precipitadas, no se incomodaria mais: que o fizessem, ento.
   Olhou para o relgio e viu que ainda faltavam quinze minutos para a chegada do advogado. Estava determinada a no sair do quarto antes disso. Aps falar com ele, 
tinha a inteno de abandonar a quinta o mais depressa possvel. J arrumara as malas. Como no conseguira dormir, levantara-se bem cedo, antes de Lusa chegar com 
a bandeja do caf, e arrumara tudo que a empregada cuidadosamente pendurara no armrio na noite anterior.
   Era tolice arrepender-se por no ter trazido um tailleur. Trouxera um conjunto de linho verde, cujo corte assentava-lhe com perfeio.
   A maquiagem era um timo disfarce. Conseguira apagar os vestgios do cansao e da noite mal dormida. Olhando para o relgio novamente, colocou todos os seus pertences 
na valise.
   Ficou calculando quanta gasolina tinha no tanque do carro e a que distncia ficava o posto, quando bateram  porta.
   Notou que a criada olhava para dentro do quarto e viu seu espanto ao olhar para as malas sobre a cama.
   - Vou partir assim que falar com o advogado, Lusa. Obrigada por cuidar de mim.
   Achou que no ficaria bem dar-lhe dinheiro, mas comprara um vidro de perfume antes da viagem e felizmente no o abrira. Deixaria o perfume de presente para a 
moa.
   - Por favor, pode levar-me at onde est o advogado?
   - Ele est no escritrio do sr. conde. Vou lev-la at l.
   Ao seguir a criada, Shelley percebeu que havia mais de um andar at  o trreo. Provavelmente fora construdo na tradio moura e com alas separadas para vrios 
membros da famlia.
   A escada levava a um hall muito bonito, com trs portas. Lusa bateu numa delas e afastou-se para que Shelley entrasse.
   Sentiu-se intimidada. A moblia da sala era pesada e escura e havia pouca luz, mas  medida que seus olhos foram se habituando  penumbra, pde observar a beleza 
dos mveis. Uma porta-janela dava para um ptio particular. A sagrada privacidade dos homens da famlia, pensou com sarcasmo, ao voltar-se para olhar as pessoas 
que l se encontravam.
   Havia apenas duas: Jaime e um outro homem, que decerto era o advogado.
   No estava realmente surpresa com a ausncia da madrasta e da meia-irm, mas no pde deixar de pensar, com um pouco de cinismo, como seu pai se sentiria se soubesse 
como elas a haviam jogado s feras, ou antes,  pantera, pois era esse felino que o arrogante e cnico meio-irmo lhe lembrava.
   - Shelley, deixe-me apresent-la ao sr. Armandes. Vou deix-lo explicar as complexidades do testamento do seu pai, com relao  sua herana. - Virou-se e disse 
alguma coisa em portugus ao advogado, que parecia muito srio ao inclinar-se para cumprimentar Shelley.
   A indignao dominou-a. Tudo bem. Que o seu arrogante meio-irmo a julgasse mal se assim o desejasse, mas no pretendia permitir que o advogado fizesse o mesmo 
julgamento errado.
   Aps a sada de Jaime, ela comeou a falar.
   - Por favor, vamos nos sentar, para ficarmos mais  vontade - sugeriu o sr. Armandes, interrompendo-a. Contra a vontade, sentou-se e esperou que ele se sentasse, 
e, depois, inclinando-se sobre a mesa, declarou num tom cheio de emoo.
   - Antes que diga alguma coisa a respeito do testamento do meu pai, quero que fique bem claro que no importa o que tenha me deixado, pretendo renunciar a tudo. 
Para mim  suficiente saber que eu tinha um lugar na sua lembrana e no seu corao. Eu no preciso e nem quero bens materiais para provar o seu amor por mim. - 
Toda a angstia que sofrer desde que chegara  quinta dominou-a, destruindo seu controle. Estava to emocionada que parou de falar e tentou afastar as lgrimas 
que enchiam seus olhos. Mas continuou inflexvel:
   - Eu sei que... certas pessoas pensam que eu deliberadamente deixei de procurar o meu pai. No  verdade.
   Procurou contar com calma as trgicas circunstncias que haviam causado a separao entre eles e que crescera acreditando que estivesse morto. Uma ou duas vezes 
sentiu que o advogado queria interromp-la e notou o choque e a compaixo estampados em seu rosto.
   - Por favor, no sinta pena - disse emocionada. - O que importa  que meu pai gostava de mim.  a nica coisa que um filho tem o direito de esperar dos pais. 
Nada alm disso importa. O senhor no pode imaginar como desejava ter conhecido a verdade antes de sua morte, mas o casal que ele encontrou aqui e que lhe falou 
a meu respeito tinha se mudado da cidade onde eu vivia com minha av. No sabiam que ela falecera e que eu estava num orfanato, e naturalmente meu pai no poderia 
saber que eu fora registrada com o sobrenome da minha av. Foi por mero acaso que eu vi o anncio no jornal.
   - Foi uma tragdia - disse o advogado sacudindo a cabea. - Seu pai... - fez uma pausa, olhando para ela. - S posso dizer-lhe que, se a tivesse conhecido, tenho 
certeza de que iria am-la ainda mais, se isso fosse possvel. Nos ltimos anos, ele vivia louco pela necessidade de encontr-la, mas Deus no o permitiu...
   Desolada, Shelley desejou poder compartilhar da f do advogado. Isso faria com que o seu prprio sofrimento fosse mais fcil de suportar.
   Olhando para o relgio, procurou falar calmamente.
   - Peo desculpas por tomar tanto o seu tempo. Eu preciso... - Levantou-se, mas o advogado estendeu a mo pedindo para que voltasse a sentar-se.
   - Por favor, sente-se e oua-me. Eu compreendi tudo o que me contou, mas devo dizer-lhe que no deve desistir de algo de valor, por causa da emoo. - Olhou-a 
fixamente. - A senhorita deve entender que eu fui o advogado da famlia por muitos anos. Eu e eles presenciamos a luta do seu pai para encontr-la. Dizem que "saber 
tudo  entender tudo", ento, por favor, seja paciente comigo. Deixe-me explicar um pouco da histria dessa famlia.
   Como no podia agir de outra forma, pois sair naquele momento seria falta de educao, sentou-se novamente e suspirou. Queria dizer ao advogado que no culpava 
Jaime inteiramente pelas suas concluses. Ela estava fugindo, no do seu desprezo e antipatia, mas das suas prprias emoes. Nunca sentira algo to forte diante 
de um homem, mesmo sendo to hostil como ele fora. O seu instinto feminino a aconselhava a partir logo, enquanto ainda podia faz-lo.
   Ao invs disso, tinha que permanecer sentada, ouvindo enquanto o advogado comeava a contar uma histria que ameaava ser muito comprida.
   - A senhorita precisa compreender que quando a condessa conheceu seu pai, era uma senhora enfrentando um problema grave. Seu marido, o pai de Jaime e Carlota, 
morrera enquanto jogava plo. O casamento deles era do tipo tradicional, arranjado pelas duas famlias. Quando ela casou-se com Carlos, ele era um homem rico, mas 
aps a morte do seu av, logo depois do casamento, comeou a especular imprudentemente com o dinheiro e, quando Carlota nasceu, estava quase indo  falncia... Ele 
era um homem nascido fora da sua poca. Fantico por esportes e hobbies milionrios. - O advogado fez uma pausa, como se estivesse recordando velhas discusses. 
- Eu tentei avis-lo, mas no quis me ouvir. Naturalmente a esposa ignorava tudo a respeito da sua situao financeira e somente quando ele faleceu soube da verdade. 
Ficou desnorteada, sem saber o que fazer. Ficou decidido que deveria vender a sua casa de Lisboa e esta quinta. Ela e as crianas iriam viver numa pequena propriedade 
que a famlia possua na costa, no muito distante daqui. A casa de Lisboa foi vendida quase que de imediato, mas esta quinta, com os seus vinhedos abandonados, 
foi diferente. O falecido conde no era um homem que se interessasse pela terra.
   Shelley pareceu notar o tom de desaprovao na voz do advogado.
   - Assim sendo, a condessa e seus filhos foram morar na casa junto  costa. Foi l que conheceu seu pai. Naturalmente deve saber que ele era um pintor. Naquela 
poca comeava a ficar famoso e fui eu que os apresentei. Seu pai tambm era meu cliente e uma pessoa que demonstrava uma grande sagacidade para investimentos. Alguns 
poderiam dizer que teve sorte, mas existe mais do que sorte envolvida em fazer uma fortuna com o que se chama de especulao.                                    
   Naquele ponto, o advogado fez uma pausa, mexeu-se na cadeira e depois continuou:
   - Na poca em que eu o apresentei  sra. condessa, seu pai era um homem rico, mas a pintura ainda era a sua grande paixo. Ele pediu permisso  condessa para 
pintar um quadro da vila e eu acredito que foi nessa ocasio que o romance comeou. Seu pai desaconselhou a venda da quinta e estimulou o interesse de Jaime pela 
terra e os vinhedos. Agora j deve ter percebido que Jaime gostava muito dele. Foi o dinheiro e os investimentos de Phillip na terra que tornaram a quinta lucrativa 
novamente. Por ocasio do casamento, ele tambm comprou a casa da condessa, que continuou no nome dela.
   -  este imvel que ele lhe deixou em seu testamento, mais uma pequena porcentagem nos lucros da quinta. A srta. no deve pensar que, ao aceitar esta herana, 
esteja de alguma maneira prejudicando a condessa ou a sua famlia no sentindo financeiro. Seu pai deixou, em seu testamento, a condessa e seus filhos muito bem amparados.
   - E assim mesmo o meu meio-irmo se ofendeu com o fato do meu pai ter deixado algo para mim.
   - Creio que o ressentimento do sr. conde no  motivado pelo fato do seu pai ter lhe deixado alguma coisa, mas pelo seu desconhecimento dos fatos. Ele acha que 
a senhorita ignorou de propsito a existncia do seu pai, alis como todos ns pensamos. No sabamos que desconhecia a sua existncia, assim como ele a sua. Ns 
todos a julgamos mal, srta. Howard, mas apenas por ignorar os fatos, no por maldade... Quando o senhor conde souber da verdade...
   - No! - Vendo a surpresa estampada no rosto do advogado, Shelley tentou abrandar a sua negativa com um sorriso.
   - Eu ainda no quero falar sobre isso com... com meu meio-irmo. Quero pensar no que o senhor acabou de me dizer, mas ainda acho que por direito a vila pertence 
 condessa e...
   - No. Por direito ela  sua - interrompeu o advogado com firmeza. - Eu admiro o esprito independente que a leva a recusar esse presente, mas pense no futuro, 
srta. Howard. Um dia se casar e ter filhos. Recusando o presente que o seu pai lhe deixou, estar recusando em nome deles tambm. No sabe o que a vida lhe reserva. 
Quando a sra. condessa casou-se com o conde, ningum poderia imaginar o que a esperava. Estava se casando com um jovem rico e entretanto...
   - Mas hoje em dia  diferente - disse Shelley com teimosia - As mulheres no so mais dependentes dos seus maridos. Eu no quero a herana. - E no conseguia 
explicar-lhe por que sentia que a vila ainda pertencia  condessa e sua famlia. Estava feliz pelo fato de o pai ter se lembrado dela, pois a amava, e realmente 
no desejava nada alm disso.
   Mesmo agora, entendendo as razes, ainda sofria por ter sido rejeitada pela famlia do pai. Fora o orgulho que a impedira de contar a verdade. Ao invs de alegrar-se 
pelo fato de saber que Jaime amava seu pai, sentia ressentimento por ele ter estado ali com Phillip, enquanto ela...
   - A senhorita deve saber que a condessa  inglesa pelo lado paterno, mas a me dela era portuguesa, e voltou para casa dos pais depois do falecimento do marido, 
no incio da ltima guerra mundial. Jaime era muito mais ligado  me do que ao pai. Ele e Carlos no se davam bem, a sua infncia no foi feliz. Vocs tom muita 
coisa em comum, embora ainda no saibam disso.
   Foi interrompido pela entrada de uma criada trazendo uma bandeja com caf. Havia trs xcaras e, quando Jaime apareceu, Shelley levantou-se, pediu desculpas e 
saiu logo em seguida. Viu Jaime olhar para ela intrigado, porm no fez qualquer movimento para det-la.
   J falara com o advogado e no havia mais nada para prend-la ali. As malas ainda estavam em seu quarto, mas foi fcil lev-las at o carro, que encontrou depois 
de perguntar a um empregado que cuidava do jardim.
   Estava estacionado na garagem junto ao estbulo. Se fosse outra a ocasio, gostaria de ter ficado mais um pouco para admirar e acariciar os cavalos, mas estava 
com pressa de partir.
   H dois dias atrs teria lhe parecido impossvel imaginar que pudesse sair de uma casa sem se despedir dos anfitries, mas a sua madrasta e a famlia no ficariam 
pesarosos com a sua partida. Era uma vergonha sentir-se to desolada. Era algo que no deveria mais sentir depois de adulta.
   Deu a partida e o motor logo pegou. O tanque estava com um quarto da sua capacidade, o suficiente para lev-la at o primeiro posto. Ao sair da quinta, fez um 
esforo para resistir ao impulso de olhar para trs. Entretanto, depois de alguns quilmetros, ao chegar ao lugar onde a estrada bifurcava, tomou o caminho que levava 
at a costa. Sentira um impulso irresistvel. Sabia que no poderia deixar o Algarve sem ao menos ver a vila que o pai lhe deixara.
   Felizmente o advogado mencionara o vilarejo onde estava situada e lembrava-se do nome. Consultando o mapa, vira que poderia com facilidade chegar at o vilarejo 
 tarde, e no guia havia vrios hotis indicados ao longo da costa do Algarve. Com certeza encontraria um quarto para passar a noite antes de continuar a viagem 
para casa.
   Algo lhe dizia que era loucura ir at a vila, mas no podia resistir ao impulso de v-la. Talvez l encontrasse alguma coisa do seu pai, alguma coisa  qual pudesse 
agarrar-se nos prximos anos.
   

CAPTULO III

   O vilarejo ficava logo aps um pinheiral que cobria a parte baixa do morro.  medida que a estrada descia, Shelley viu o mar, incrivelmente azul, refletindo a 
cor do cu.
   Aps a sombra agradvel da floresta, enfrentou o sol forte que batia nas paredes das casas, tornando-as ainda mais brancas. Parou numa pracinha, com grupos de 
pessoas reunidas nas mesas colocadas na calada de um caf.
   Alguns olharam-na com curiosidade quando saiu do carro, mas depois passaram a ignor-la por educao. Os portugueses eram bem mais tmidos e retrados do que 
os outros povos que conhecera.
   Sentou-se numa das mesas vagas e um garom aproximou-se para anotar o pedido. Apesar da poeira provocada pelos carros que passavam pela praa, as mesas e cadeiras 
eram muito limpas. Shelley pediu uma limonada e perguntou-lhe se sabia o caminho para a Vila  Hilvares, como o advogado dissera que ela se chamava. Para seu alvio, 
o rapaz conhecia o lugar e deu-lhe as indicaes de que precisava. Ficava um pouco afastada do vilarejo, com vista para o mar.
   Vira um brilho de curiosidade nos olhos do garom ao mencionar o nome da casa. Como tinha o nome da famlia do seu meio-irmo, percebeu que eram muito conhecidos 
naquela regio.
   Embora tivesse pensado que Jaime no desejasse as propriedades da famlia passando para outras mos, sabia que provavelmente cometera uma injustia. Ele era um 
homem orgulhoso demais para ter um vcio to vulgar como a ganncia. No que isso tivesse alguma importncia. J dera instrues ao advogado para preparar os papis 
para devolver a vila, bem como a renda que teria de receber do restante da herana, para Jaime e sua famlia e pedira para mand-los ao seu advogado em Londres. 
Estaria de volta antes do que imaginara. Viera para Portugal com tantas esperanas.
   Qualquer um, com um pouco de bom senso, poderia ter percebido que no seria bem-vinda. Mas a famlia do seu pai no sabia a verdade...
   Sentada ali naquela mesa, procurou afastar Jaime e sua famlia da mente. Algum na mesa vizinha pediu um sanduche, e Shelley subitamente lembrou-se de que no 
comia h muito tempo. Procurou atrair a ateno do garom, mas quando ele finalmente apareceu com o pedido, achou o caf timo e o pozinho que trouxera delicioso.
   J eram quase seis horas quando voltou para o carro. Seguiu as instrues e logo encontrou a vila no fim de uma rua estreita.
   Como a quinta, a vila fora construda no estilo mourisco. As venezianas de madeira estavam fechadas e a porta de madeira e arco impedia a sua entrada. Deveria 
ter imaginado isso. Sentindo-se desapontada, Shelley olhou para as paredes brancas e as janela fechadas, ficando cada vez mais frustrada. No encontraria nada do 
seu pai ali do lado de fora da casa.
           Esta parte do Algarve era renomada pelas suas lindas praias e, a menos de algumas milhas de distncia, Shelley viu que estavam construindo um grande hotel. 
Era uma sensao estranha saber que aquele pedao de terra lhe pertencia. Em Portugal as praias pertenciam ao Estado, mas a casa e vrios acres de terra eram verdadeiramente 
seus.
   Mas no tinha a sensao de posse, de pertencer ao lugar. Se ao menos pudesse ter entrado na casa, ou mesmo se pudesse ver algum quadro pintado pelo pai. Mas 
era orgulhosa demais para voltar  quinta e pedir a chave.
   O sol estava desaparecendo no mar. Logo ficaria escuro. Devia voltar para o carro e partir pela costa,  procura de um hotel onde pudesse passar a noite, mas 
algo fez com que demorasse mais, sentindo um misto de tristeza e dor. Seu pai vivera naquela terra, e naquela casa, mas no conseguia imagin-lo ali. No sabia nem 
como ele era, pensou com amargura. Sua av destrura todas as fotos do casamento depois da morte da sua me.
   Vir at ali fora um impulso tolo, uma perda de tempo. Virou-se para partir e surpreendeu-se ao ver que um homem a observava.
   - Jaime!
   Pronunciou o nome, sentindo um pnico a lhe paralisar os msculos. Um confronto com ele era a ltima coisa que desejava. 
   - Imaginei que estaria aqui.
   Notou que algo mudara. Ele no lhe parecia mais to austero e os olhos dele refletiam tristeza e remorso. Estava perto dela, mas no fez nenhum gesto para toc-la.
   - O que posso dizer? - Ele estendeu as mos num gesto de desalento. - Por que no nos contou, querida? - Sua voz parecia cansada. - Se soubssemos...
   - Assim mesmo voc me hostilizaria - disse, interrompendo-o. - Voc queria pensar o pior a meu respeito e agora que descobriu que estava errado, veio pedir desculpas. 
Mas no est preocupado com os meus sentimentos, s com os seus. No liga para mim, para a minha dor, s para o seu orgulho!
   - Est enganada. Eu me preocupo com voc, mas no sou o nico culpado do orgulho. Voc tambm o sente dentro de si... Deveria ter-me contado toda a verdade, garota. 
O seu pai foi um dos melhores homens que j conheci e sempre me considerei uma pessoa de sorte por t-lo como mentor no lugar do pai com quem nunca tive afinidade. 
Quero que saiba que me sinto mal em pensar como fui to feliz com ele e voc foi privada de tudo isso.
   Sentiu seu ressentimento diminuir e no conseguiu conter as lgrimas. Virou-se para que ele no percebesse.
   - Eu cresci julgando-o morto. Gostaria... - calou-se e olhou para a vila. - Pensei encontrar alguma coisa dele aqui... Eu nem sei como ele era. - Sentia que no 
estava mais podendo controlar-se. - Preciso partir... J disse ao advogado para preparar os papis devolvendo a vila  sua famlia. Eu no quero ficar com ela...
   Estava de costas para ele e rezava para poder chegar at o carro sem que ele visse que estava chorando. H anos no chorava, mas naquele momento...
   Ficou tensa ao sentir a mo dele em seu brao e afastou-se com rapidez, s que, inexplicavelmente, ele bloqueou-lhe o caminho.
   - Querida, no esconda suas lgrimas de mim. Acha que eu tambm no chorei por ele?
   Ele segurou-a nos braos, confortando-a, acariciando-lhe os cabelos, enquanto chorava encostada em seu ombro. Era o que sempre desejara, pensou. Sentir essa segurana, 
carinho, conforto.
   - Deixemos as nossas diferenas de lado e vamos comear tudo de novo, maninha. Volte agora comigo para a quinta. Minha me est muito preocupada por sua causa. 
Nesta parte do mundo, ainda no aceitamos que as nossas jovens saiam por a sozinhas  noite.
   Queria protestar, mas no conseguia lutar contra o que estava sentindo.
   - Meu carro... - disse ela, mas Jaime j a afastava da vila.
   - Um dos empregados o levar de volta para voc. Amanh voltaremos com a chave e eu lhe mostrarei a vila. Se realmente no quiser ficar com ela, eu a comprarei 
pelo preo do mercado. No... no diga nada agora. Falaremos mais tarde sobre isso, quando estivermos mais calmos.
   Com o brao em seus ombros, levou-a at o carro, que estava estacionado ali perto.
   A maneira de trat-la agora era completamente fraternal. Os comentrios da noite anterior, a respeito do desejo que sentia por ela, pareciam nunca ter existido. 
Estava certa quando achara que estava mentindo. Shelley tentou afastar-se, mas ele recusava-se a solt-la. A maneira como a abraara, como a consolara, no poderia 
ter sido mais perfeita se tivesse passado semanas ensaiando. A sua preocupao fora tudo o que poderia esperar de um quase parente, mas ontem tratara-a com o mais 
profundo desprezo. Por que viera atrs dela? Por que a levava de volta para a quinta? E por que ela concordara em voltar?
   Julgava ter encontrado a resposta para as duas primeiras perguntas quando entrou no carro.
   - Minha me nunca me teria perdoado se eu voltasse sem voc. Quando descobri que ningum a vira passar pelo vilarejo, cheguei  concluso de que decidira vir 
at aqui. Espero que dar a oportunidade de nos penitenciarmos pela pssima recepo, querida. Minha me em particular sente o peso da sua culpa. Ela amava seu pai 
profundamente.
   Ento era por causa de sua me que a estava levando de volta, Mas por que ela estava voltando?
   Para descobrir tudo o que fosse possvel sobre o estranho que fora seu pai, naturalmente. Que outro motivo poderia ter?
   Ao chegar  quinta, pediu a Jaime se poderia ir para o quarto sem jantar. O dia deixara-a exausta e emocionalmente esgotada para conversar com a madrasta.
   - Mandarei Lusa levar o jantar ao seu quarto - disse Jaime - e, talvez, se estiver se sentindo bem amanh, gostaria que tomasse caf comigo. Geralmente levanto 
cedo e gosto de visitar a propriedade e controlar a plantao antes de comear o trabalho no escritrio. Minha me e Carlota no costumam acordar cedo.
   Se Lusa ficou surpresa ao v-la de volta, no o demonstrou. Sorriu para ela quando trouxe a bandeja com o jantar, que colocou sobre uma mesa no terrao.
   A sopa cremosa de camaro estava uma delcia e, quando acabou de tom-la, no conseguiu comer mais nada. Tinha uma salada que ela mal tocou e a sobremesa era 
um doce de abric e nozes. Preferiu tomar uma xcara de caf. Sentada no terrao podia ouvir os grilos. A noite estava calma e trazia um perfume que no conseguia 
definir. Sentia-se relaxada e com vontade de dormir, apesar de ser apenas dez horas.
   Vindo do ptio, ela podia ouvir o barulho da gua da fonte e agora um outro: vozes. Curiosa, aproximou-se da grade do terrao. Viu Jaime andando ao lado da me.
   - Estou to contente que voc tenha conseguido traz-la de volta, Jaime. Sinto-me to culpada! Quando penso o que deve ter sofrido. Se Phillip soubesse...
   Shelley percebeu que a madrasta chorava e ela mesma sentiu um n na garganta.
   - A culpa  minha - ouviu Jaime dizer. - Fui eu que a julguei mal, mas no se preocupe, mame. Encontrarei um meio de desculpar-me.
   - E a vila? O sr. Armandes disse-me que ela est irredutvel... No a quer...
   O som de suas vozes cessou quando entraram na casa e Shelley saiu do terrao. Por que deixara Jaime persuadi-la a voltar para a quinta, se estava to determinada 
em partir? Seria somente pela necessidade de descobrir mais sobre seu pai ou seria porque Jaime a atraa?
   H anos atrs fizera uma promessa. O amor, como as outras moas conheciam, no seria para ela. O casamento no a atraa. Duvidava poder um dia confiar em algum 
at esse ponto. Preferia ser independente, tanto emocional como financeiramente. Entretanto, aqui estava ela, trmula como uma adolescente ao lembrar-se das mos 
de Jaime em seu corpo.
   Ao preparar-se para dormir, procurou lembrar-se de que ele era o enteado de seu pai, nada alm disso. No devia deixar-se iludir pela emoo que percebera em 
sua voz ao falar-lhe do pai, ou pela compaixo que vira em seus olhos ao v-la chorar.
   Suas lgrimas... encolheu-se diante da lembrana daquela fraqueza. Nunca a viram chorando. Nem a sua av, nem as pessoas do orfanato, nem suas amigas. Ningum. 
Sentia-se muito vulnervel diante do fato de Jaime t-la visto chorar.
   Procurou uma camisola na mala e dirigiu-se para o banheiro. Os aparelhos sanitrios eram antigos e a banheira enorme. Tomou um banho delicioso. Lavou os cabelos 
e secou-os com toalha de banho.
   Sem pintura, sua pele parecia plida, quase translcida. Comparou-a mentalmente  pele morena de Jaime. Subitamente, imaginou os dois corpos entrelaados num 
abrao apaixonado. O que estava acontecendo com ela? No costumava reagir assim aos homens. Nunca. O corpo masculino no costumava fascin-la tanto. O ato sexual 
era algo para os outros. Talvez devido  educao antiga que recebera da av e  sua prpria indiferena. Uma virgem de vinte e quatro anos. Que fora de moda! Em 
compensao, Jaime devia ter muita experincia.
   J estava pensando nele outra vez. Calculava que deveria ter trinta e poucos anos. Com certeza devia ser casado. Nos pases latinos, tanto os homens como as mulheres 
se casavam cedo. E a maioria dos homens, esperava que as noivas fossem puras, especialmente neste lado do mundo, onde o sangue mouro ainda fazia parte dos seus antepassados.
   O secador de cabelo ainda estava na mala e Shelley enrolou a toalha em seu corpo e foi at o quarto busc-lo. A toalha era pequena e, ao olhar-se no espelho, 
com os cabelos soltos que lhe chegavam at os ombros e as pernas longas que apareciam abaixo da toalha, no gostou da sua imagem. Estava acostumada com aquela garota 
bem comportada, sempre impecvel e eficiente. A imagem que via no lhe era familiar. Em casa, aps o banho, normalmente usava um roupo longo que cobria todo o seu 
corpo, e o cabelo em desalinho tambm no lhe agradava. Costumava ir ao cabeleireiro com freqncia, apesar de usar um penteado simples. Gostava de que tivesse um 
toque profissional.
   Ligou o secador e o rudo do mesmo impediu que ouvisse baterem  porta.
   Quando esta se abriu, pensou simplesmente que fosse Lusa para buscar a bandeja do jantar e no interrompeu o que estava fazendo. Ao perceber quem era na verdade, 
Jaime j entrara no quarto e fechara a porta.
   - Mame estava preocupada com voc e eu me ofereci para v-la.
   Achou que no ficava bem continuar ajoelhada no cho diante do espelho, e ele em p  sua frente. Pousou o secador e levantou-se, esquecendo da toalha exgua 
que cobria sua nudez.
   Com o calor do secador ficara corada e o seu cabelo, j quase seco, caa em ondas emoldurando-lhe o rosto. A toalha que estava bem presa quando se ajoelhara, 
estava agora mais frouxa e revelava a curva do busto.
   - Aqui neste pas no  permitido s moas solteiras exibirem-se to provocantemente na frente de um homem.
   Ele estava srio e olhava-a como se fosse uma criana apanhada em falta.
   - Para sua informao, no acho que esteja me exibindo ou provocando. Voc se esquece de que entrou aqui sem ser convidado.
   - Eu bati.
   - No ouvi e se tivesse ouvido teria dito para no entrar. - Ele continuava a olh-la. - Embora voc possa no acreditar, no costumo andar por a sumariamente 
vestida na frente de estranhos.
   - Mas quando est s, obviamente prefere ficar  vontade. - Encolheu os ombros e, antes que ela pudesse falar, acrescentou: - Por que no? Devo admitir que eu 
tambm prefiro. Ns aceitamos a nossa nudez, mas no gostamos disso em nossas jovens solteiras.
   A harmonia que estavam comeando a sentir estava esquecida. Shelley virou-se para ele.
   - Para sua informao, no que seja da sua conta, no costumo andar nua, longe disso.  que me esqueci de trazer o meu roupo. O que eu no esperava  que a minha 
privacidade fosse invadida. Quer fazer o favor de sair?!
   - No h necessidade de ficar to zangada. Voc  minha responsabilidade. Aqui em Portugal, ns levamos a famlia muito a srio e somos parentes, afinal  meu 
dever e minha obrigao tomar conta de voc e proteg-la, como protejo Carlota. Voc pode no saber, mas aqui a maioria das pessoas tem sangue mouro nas veias e 
isso  uma herana que nos torna muito cuidadosos com as nossas mulheres. Por exemplo, se eu entrasse em seu quarto e a encontrasse assim como est, com outro homem, 
na minha posio de irmo eu teria que exigir uma reparao pela sua honra perdida e ele teria de casar-se com voc.
   Shelley sentou-se na cama e encarou-o.
   - Mas isto  ridculo...  medieval!
   - Talvez. Nas nossas grandes cidades, como Lisboa, por exemplo, tenho certeza de que pensariam como voc, mas aqui  interior e talvez um pouco antiquado.
   - Nunca ouvi algo to ridculo em toda a minha vida - respondeu Shelley, provocada pela expresso zombeteira de Jaime ao contar-lhe aquilo.
   - Ridculo ou no,  a verdade e  uma das coisas que tenho de lhe dizer. Voc vai descobrir que nesta parte do mundo os rapazes so muito mais... ardentes... 
digamos, que a mdia dos ingleses. Um portugus, tenho certeza, no hesitaria em tirar vantagem da oportunidade oferecida por uma maneira de vestir convidativa...
   A maneira como falara e como olhava para ela fizeram com que dissesse imediatamente:
   - Ento  bom que voc tenha uma boa parte de sangue ingls e, sendo assim, est acima de qualquer tentao, no ?
   No deveria sentir-se ofendida pelo seu olhar frio, mas estava.
   - Se est se referindo ao que lhe disse ontem  noite, por favor, esquea. No deveria ter falado daquele jeito.
   - E voc realmente no me desejava, no ? Queria somente me assustar.
   Viu em seu rosto uma expresso que no soube definir.
   - Assust-la? Voc est certa, querida, mas eu lhe prometo que, como seu meio-irmo, no lhe darei motivos para ter medo de mim. Agora devo ir antes que minha 
me venha ver por que estou demorando. Embora ela tenha sangue ingls, no aprovaria me ver no seu quarto, enquanto est vestida de maneira to provocante. Ou melhor, 
despida.
   A maneira como a olhava fez com que o sangue lhe subisse ao rosto. O desejo que sentia era algo desconhecido. Mas subitamente percebeu que estava prestes a revelar-lhe 
coisas em demasia. 
   - Agora est olhando para mim com o receio que se espera de uma das nossas tmidas virgens criadas nos conventos. No est na Inglaterra agora e, embora sinta-me 
tentado, prometo lembrar-me de que, embora os laos entre ns no sejam de sangue, eles existem. Como eu j disse, mesmo nos dias de hoje, nesta parte do mundo isso 
comprometeria a virtude de uma jovem, se fosse encontrada assim, sozinha em seu quarto, com um homem com o qual no est casada.
   Shelley olhou-o com incredulidade, mas ele no riu como esperava.
   - Eu lhe asseguro que  verdade.  tambm verdade que um dos maiores desejos de seu pai era que nos encontrssemos e nos tornssemos... amigos.
   - Amigos?!
   Havia algo no olhar de Jaime que fez o corao de Shelley acelerar.
   - Aqui no Algarve ns selamos a nossa amizade assim: 
   Ele inclinou-se e beijou-lhe os lbios. Ela sentiu um turbilho de sensaes. Levantou a mo para afast-lo mas, ao invs disso, surpreendentemente seus lbios 
abriram-se sob o calor insistente da boca masculina. As reaes que Jaime despertava nela eram ainda mais chocantes por serem to inesperadas. O desejo era algo 
que at agora no aparecera em sua vida, entretanto ali estava ela, tremendo de desejo, sofrendo com uma necessidade que lhe era desconhecida, mas ao mesmo tempo 
estranhamente familiar.
   Percebeu que Jaime sabia do desejo dela e ouviu-o murmurar algo incompreensvel, sem afastar os lbios dos seus. As mos passaram a acarici-la, provocando arrepios.
   Percebeu que estava nua no momento em que as mos de Jaime percorreram seu corpo com inconfundvel sensualidade. Apesar do fato de ser uma intimidade que nunca 
conhecera antes, estava consciente da reao do seu corpo.
   A boca mscula tornava-se mais exigente. As mos acariciavam-lhe os seios.
   - Shelley!
   Ela abriu os olhos e percebeu que ele a encarava. Sua respirao estava ofegante, o desejo tornava suas pupilas enormes e nelas percebia arrependimento e tristeza 
refletidos.
   - No... eu no devo - Jaime murmurou e, apanhando a toalha, cobriu-lhe o corpo. Por um momento ele pareceu lutar consigo mesmo, tentando controlar o desejo que 
sentia. Com medo do que viria a seguir, Shelley susteve a respirao. Repentinamente, ele afastou-se.
   - Durma bem, querida - murmurou com voz meiga. - E no se esquea, ns temos um encontro amanh cedo para o caf.
   Ela esperou, sem se mover, at ouvir a porta fechar-se atrs dele. Em apenas dez minutos todo o seu universo ficara de cabea para baixo. Onde estavam a calma 
e o controle dos quais tanto se orgulhava? Com um beijo, Jaime derrubara as defesas que construra  sua volta. Com um toque de suas mos demonstrara que embora 
fosse imune aos outros homens, no resistiria a ele... Com um arrepio, vestiu a camisola e acabou de secar o cabelo. No dia seguinte teria tempo para preocupar-se 
com os seus sentimentos, lembrar-se de que a beijara. Mas, naquele momento, precisava dormir para refazer-se das emoes do dia.
   

CAPTULO IV
   
   Shelley acordou cedo, confusa e amedrontada. De um dia para o outro o seu mundo se transformara e ela fora exposta a uma vulnerabilidade emocional que no imaginara 
possuir dentro de si. Era impossvel que um homem como Jaime pudesse desej-la. Entretanto, quando olhara para ela... Por que estava to atemorizada? No poderia 
ser somente porque ele parecia desej-la.
   No, eram os seus prprios sentimentos que a amedrontavam. A vida toda evitara o sofrimento de laos emocionais, sempre temendo a rejeio e a dor. A av incutira 
nela desde cedo uma falta de autoconfiana que ainda a perseguia, no importava o quanto tentasse racionalizar suas reaes. A nica maneira que encontrara para 
enfrentar os seus temores era pensar ser imune ao amor... Nunca entregar-se-ia a uma outra pessoa... Porm, em poucas horas, Jaime lhe mostrara o quanto estava enganada.
   Dizer que se apaixonara por Jaime seria reduzir os seus sentimentos a uma espcie de fantasia de adolescente, mas ignor-los como sendo uma simples necessidade 
sexual era impossvel. Mas o que sentia realmente? Desejo? Atrao? Era isso e muito mais. E Jaime percebera. Vira suas reaes, como se entregara ao toque dele. 
Como pudera trair-se daquela maneira?
   Vestiu-se e foi at o terrao. Com o corao apertado viu Jaime andando pelo ptio. Ele olhou para cima e sorriu. Sentiu-se ridcula e corou violentamente.
   -  Desa e venha tomar caf comigo.
   Shelley queria recusar, mas se o fizesse estaria se traindo ainda mais.
   - Se no vier, subirei para busc-la.
   Ele sorria como se estivesse apenas provocando, mas ela sentiu a inteno atrs da ameaa e afastou-se do terrao. Uma nova onda de calor invadiu seu corpo e 
sentiu o corao descompassado.
   Sabia agora que a indignao que sentira pelo juzo errneo que fizera dela no era raiva e sim dor. Queria que ele gostasse dela. Que a aprovasse. Entretanto 
no conseguia acreditar nessa reviravolta.
   No podia aceitar o fato de que um homem como Jaime pudesse realmente ach-la atraente. No ao ponto que as suas prprias emoes apaixonadas exigiam.
   Desejaria poder afastar todas as dvidas e esquec-las, mas a cautela pedia que pensasse cuidadosamente, lembrando-a das lies que a vida to dolorosamente lhe 
ensinara.
   Mesmo assim, ela desceu e foi ao ptio, respirando com satisfao o ar perfumado.
   - Finalmente!
   Jaime abraou-a com naturalidade. Procurou disfarar o seu nervosismo perguntando.
   - Que perfume  esse?
   -  que choveu a noite passada... O perfume vem do pinheiral que fica atrs dos vinhedos. O cheiro  muito agradvel, mas no pode rivalizar com o perfume da 
sua pele.
   Jaime inclinou-se e seus lbios acariciaram a curva do pescoo dela. Todo o seu corpo tremeu com uma exploso de sensaes. Ao encar-lo, percebeu-lhe no olhar 
alguma coisa indefinida. Algo primitivo que a fez arrepiar-se.
   - Quase posso acreditar que nunca lhe fizeram isso antes. - As palavras foram ditas num tom de brincadeira, mas a pergunta atrs delas era sria. Shelley abriu 
a boca para responder negando, mas a nica coisa que fez foi sacudir a cabea. Sua prpria ingenuidade surpreendia-a. Afinal, tinha vinte e quatro anos!
   - Agora vejo que est outra vez na defensiva. No h necessidade disso. No quero mago-la, Shelley.
   Mas o problema no era esse. O fato era que ele poderia mago-la e no haveria nada que pudesse fazer para evit-lo.
   - Aps o caf tenho que inspecionar os vinhedos. Venha comigo.  tarde eu a levarei para ver a vila.
   - Mas, a sua me...
   - Sim, naturalmente. Ento amanh voc vir comigo e eu lhe mostrarei os trabalhos nos vinhedos. Afinal, voc tem um interesse na quinta.
   - Que eu no quero! Voc sabe disso. E a vila... 
   - Voc deseja devolver a vila ao inventrio, eu sei, mas no posso permitir que faa isso, nem minha me. Ela e eu somos scios na quinta, agora. Foi a vontade 
de Phillip. Deix-la devolver a vila ao inventrio seria a mesma coisa que roub-la. Deixe-me compr-la de voc, querida. Mandarei avali-la e depois...
   - No - respondeu Shelley, contente por voltar para um terreno mais firme e familiar. - No quero receber nenhum dinheiro. 
   - Por qu? Por causa do que eu disse a voc antes de saber a verdade? 
   Isso influra na deciso dela, mas havia mais do que isso. 
   - Ela sempre pertenceu  sua famlia - respondeu. - E aqui no  o meu lugar.
   - Por que diz isso? Por que no haveria de ser o seu lugar? Era a casa do seu pai e agora  sua. Suas palavras emocionaram-na. - A vem Lusa com o nosso caf.- 
ele comentou. A chegada da mulher interrompeu-os, dando-lhe tempo para controlar-se. Era bvio que Lusa estava curiosa com a sua volta.
   - Lusa deve estar imaginando o que estar acontecendo - ela comentou quando a criada se afastou.
   - Eu imagino que ela deve conhecer a atrao que existe entre um homem e uma mulher para saber o que est acontecendo.
   A resposta de Jaime surpreendeu-a. Estava claro que no a compreendera bem.
   - Isso preocupa voc? - perguntou, ao ver que ela continuava sria.
   - Ns mal nos conhecemos - protestou. Jaime soltou uma gargalhada.
   - Muito britnico - continuou rindo. - Talvez "ainda" no. Mas vamos nos conhecer muito bem. - Dito isso, procurou concentrar-se em tomar o caf.
   Aps a segunda xcara, Jaime olhou para o relgio.
   - Est na hora de lev-la at o quarto de minha me. - E como que adivinhando o que Shelley sentia, disse: - No h necessidade de ficar com receio. Lembre-se 
de como ela amava o seu pai e, por favor, no a culpe pelas minhas faltas. Ela havia me alertado, mas eu no quis ouvi-la. Eu amava seu pai tambm e de um certo 
modo eu tinha cime pelo fato de voc ser sua filha e eu no. Nem todo o amor da minha me e o meu puderam diminuir a dor que ele sentia por no encontr-la. Est 
pronta?
   Ela levantou-se e seguiu-o at a casa e pelo corredor. Havia um lance de escada  sua frente.
   - Este  o apartamento que minha me ocupava com seu pai. No incio, Carlota e eu achvamos que ela se tornaria ainda mais triste se ficasse aqui, mas parece 
que mame encontra conforto nas lembranas que este lugar traz.
   Subiram a escada e ele bateu numa das portas, abrindo-a e fazendo com que ela entrasse.
   A condessa estava sentada junto a uma escrivaninha.  luz do sol da manh ela parecia plida e abatida. Havia dor em seus olhos e o que Shelley julgara ser orgulho 
e indiferena, era na realidade um enorme esforo para controlar-se.
   Ao ver Jaime inclinar-se para beijar-lhe o rosto, Shelley sentiu pena da madrasta.
   - Eu a trouxe, mame. Agora voc tem de persuadi-la a ficar.  tarde vou lev-la at a vila. Agora tenho que deix-las para ir inspecionar os vinhedos.
   Assim que ele saiu, a condessa comentou:
   - Pobre Jaime... Tem de trabalhar tanto! Mas, ao contrrio do pai, acho que gosta do que faz.
   Embora procurasse falar com animao, Shelley notou que a madrasta hesitava.
   - Jaime contou-me como ficou sabendo sobre o seu pai. Ns nunca poderamos imaginar uma coisa dessas. Ele era um homem maravilhoso. - Sua voz estava embargada 
pela emoo. - No posso lhe dizer...    
   Ela acabou confortando a madrasta ao invs de ser consolada. Mas quem no sentiria pena daquela mulher que estava sofrendo tanto?
   - Era o seu maior desejo poder encontr-la...
   - Talvez tenha sido at bom no me conhecer. Poderia ter ficado desapontado... - disse tentando aliviar a atmosfera.
   A madrasta sorriu.
   - Agora posso ver que  sua filha. Fala exatamente como ele.
   Abriu uma gaveta e retirou um lbum de fotografias. 
   - Penso que voc gostaria... 
   - Sim. Gostaria muito.
   Com essas palavras, Shelley destruiu as barreiras entre elas. Com uma voz que foi se tornando mais forte e mais firme, ela mostrou-lhe o lbum.
   Viu que herdara a estrutura ssea do seu pai, que era alto. E que os seus olhos, como esperava, eram de um homem compassivo. Viu uma foto dele no dia do casamento 
com a condessa, com um brao sobre os ombros de um Jaime bem mais jovem. Viu-o brincando com Jaime e Carlota. Diante do seu cavalete, pintando o vinhedo e, atravs 
da condessa, no vira somente as fotografias mas tambm o homem.
   Ao virar a ltima pgina do lbum, a condessa fechou-o, olhando para Shelley, hesitante.
   - Eu amava muito seu pai. Talvez mais ainda, por causa do meu primeiro casamento ter sido to infeliz. Eu gostaria de que me desse a oportunidade de am-la tambm, 
se for capaz de...
   Shelley estendeu a mo, interrompendo-a. 
   - Vamos comear de novo? - sugeriu.
   A condessa levantou-se e beijou-a com ternura.
   - No fim da semana iremos para Lisboa para passar um ms, naturalmente desejamos que venha conosco. A famlia vai querer conhec-la. - Como que adivinhando a 
recusa de Shelley, continuou: - Por favor,  o que o seu pai teria desejado. Agora ns somos a sua famlia.
   - Eu... - Shelley estava em dvida. Poderia pedir uma licena no escritrio. No tirara frias no ano passado, e no fora por isso que viera para Portugal? O 
desejo de fazer parte da segunda famlia do seu pai?
   - Voc tem de vir conosco. - A condessa subitamente estava mais segura e controlada. - Jaime vai insistir para que aceite. Seu pai desejava muito que se conhecessem. 
Ele esperava... - calou-se e suspirou. - Seu pai era um homem muito romntico. Um dos seus sonhos era que voc e Jaime se apaixonassem como ns.
   Foi difcil controlar o seu espanto, mas conseguiu. Num estado de esprito muito confuso, ela se deixou envolver nos planos da condessa, e ficou sabendo que sua 
madrasta tinha esperanas de um romance entre Carlota e um dos primos em segundo grau.
   - No que eu concorde com casamentos arranjados para os meus filhos, mas Santos  um rapaz encantador e muito apaixonado por Carlota.
   Shelley ouvia educadamente a madrasta, mas seus pensamentos se concentravam no que ela havia dito sobre seu pai. Ento ele havia desejado que Jaime e ela se apaixonassem? 
Como poderia ter previsto que isso poderia acontecer?
   Durante o almoo, Shelley descobriu que Carlota no era a adolescente tmida e retrada que esperava encontrar; na realidade, era alegre e extrovertida, com uma 
tendncia a falar primeiro e pensar depois. Descobriu tambm que a condessa e seus dois filhos compartilhavam de uma intimidade que sempre invejara. Jaime de vez 
em quando interrompia a tagarelice da irm, lembrando-a de que tinham combinado causar uma boa impresso a Shelley.
   - Eu nunca achei que estavam certos a seu respeito - disse Carlota. - Eu sabia que algum que fizesse parte do papai Phillip tinha que ter algo de bom - disse 
a Shelley com firmeza.
   Na outra ponta da mesa a condessa suspirou.
   - Ns deveramos ter tido sua confiana, Carlota. Eu espero que Shelley possa nos perdoar...
   - Havia circunstncias atenuantes - ela interrompeu. - E como eu disse hoje de manh, acho que devemos comear de novo. No seu lugar, eu tambm teria chegado 
s mesmas concluses.
   - Voc  muito generosa. - Desta vez era Jaime quem falava. Imaginou o que ele estaria pensando das idias romnticas que seu pai tivera a respeito deles. Os 
homens latinos possuam um forte senso de lealdade para com a famlia, mas isso seria suficiente para lev-los ao casamento?
   - Lusa contou que passaram muito tempo juntas esta manh - Carlota disse a Shelley. - Espero que mame tenha convencido voc a vir conosco para Lisboa. - Fez 
uma careta. -  to enfadonho ter que visitar toda a famlia. Mas eu garanto que vo gostar de voc, j que todos adoravam o papai Phillip.
   - Shelley vai conosco para Lisboa - confirmou a condessa, e acrescentou: - E no quero v-la falando da famlia desse modo, por favor, Carlota. Acho que mais 
dois anos na escola...
   - Escola - Carlota fez um muxoxo. - No teria adiantado nada. Voc sabe que no sou estudiosa, mame.
   - Eu sei que voc no tenta ser - concordou a me secamente. - Agora termine o almoo. Jaime vai levar Shelley at a vila. - Uma sombra passou pelo seu rosto. 
- Eu deveria ir com voc, Shelley, mas sei que vai entender que ainda no estou preparada para encarar as lembranas. Foi l que encontrei o seu pai pela primeira 
vez. - A madrasta parecia cansada e abatida novamente.
   - Estou contente que tenha concordado em ir conosco para Lisboa - disse Jaime mais tarde quando saam de casa. - Isso dar uma chance de nos conhecermos melhor, 
e far bem  minha me. Ela poder mim-la e exibi-la para os parentes. Ser muito bom, far com que esquea um pouco a sua dor. Ela no est bem de sade. Tem o 
corao fraco. Quando o seu pai morreu, pensamos que poderamos perd-la tambm, mas agora que est aqui...
   Enquanto ele caminhava com ela at o carro estacionado em frente a quinta, Shelley imaginava por que a condessa lhe contara sobre os planos do pai para ela e 
Jaime. Certamente ela tambm no estava pensando... No, estava se deixando levar pela imaginao. Essa espcie de casamento estava fora de moda. Mas havia a sua 
herana. Uma herana que a ligava fortemente  nova famlia. Ser que ela poderia ser uma espcie de "dote", um suborno para Jaime? Estava sendo ridcula. Ele no 
era um homem que deixaria que planejassem a sua vida.
   - Voc sabe que raramente se passa um dia em que eu no sinta falta do seu pai? Ele era um homem muito especial - aquele comentrio trouxe-a de volta  realidade.
   Jaime ajudou-a a entrar numa confortvel Mercedes. Que contraste com o seu modesto Citroen. O interior do carro cheirava a como misturado com um leve perfume 
de colnia masculina. Sentiu-se perturbada, lembrando do cheiro da pele dele.
   - Voc gostava muito dele - Shelley comentou, ficando tensa no lembrar-se do que a condessa lhe dissera. At que ponto Jaime gostava do padrasto? Chegaria a casar-se 
com uma mulher que no amava apenas para satisfazer a vontade de uma pessoa a quem amava? Portugal era diferente da Inglaterra. Ali, um homem podia casar-se e manter 
uma vida completamente separada, independente da mulher e da famlia. Os casamentos naquela parte do mundo no eram sempre a unio entre duas pessoas apaixonadas. 
Sentiu uma sensao de medo. Mas por que estava to perturbada? Mesmo se Jaime tivesse a estranha idia de lhe propor casamento porque o seu pai desejava isso, ela 
tinha a liberdade de recusar.
   Mas teria fora suficiente para recus-lo? Esse homem j despertara nela emoes como nunca havia sentido antes. H pouco tempo ela o desprezava e agora o amava. 
Um calafrio percorreu-lhe o corpo.
   - Est com frio? Deve ser o ar condicionado. Devo deslig-lo? - Em resposta, Shelley meneou a cabea e procurou acalmar-se.
   Como acontecera isso? E por qu? No viera para o Algarve  procura de um romance, longe disso, e principalmente no com esse homem. Se lhe fosse perguntado, 
diria que ele no era o seu tipo. Msculo demais. Convencido e bonito demais, e... tudo demais. Os homens com quem saa eram bem menos atraentes, que normalmente 
passavam despercebidos na rua, enquanto Jaime... Ele sempre seria notado, e atrairia a ateno das mulheres.
   No queria am-lo, pensou, dominando uma sbita onda de pnico. No era absolutamente o que desejava.  verdade que viera para o Algarve inconscientemente esperando 
encontrar o calor e o carinho de uma famlia, mas no havia nada de fraternal no que sentia por Jaime.
   Quase contra a sua vontade, virou a cabea para poder observ-lo. Cabelos escuros quase negros, ondulados. A pele, em contraste com a camisa branca, era bronzeada, 
seu perfil muito bonito.
   - Fazendo um inventrio? - Sua voz parecia caoar e o olhar tinha um brilho sensual quando olhou para ela, e sorriu ao ver que enrubescia.
   Quando estendeu a mo para tocar-lhe o rosto, ela quase se encolheu.
   - Voc est nervosa.  por minha causa? - Shelley sacudiu a cabea.
   - Eu... eu no gosto que me toquem. - A av raramente tocava. Alis, no aprovava o fato de Shelley, ainda criana, querer ser beijada e abraada. Enquanto crescia 
ficava cada vez mais retrada, e quando adolescente detestava que a tocassem. Mesmo depois de adulta, sentia dificuldade em corresponder s demonstraes de afeto 
dos amigos, tanto homens como mulheres, mas este no fora o motivo que fizera com que se afastasse da mo de Jaime. - No deveria estar prestando ateno na estrada?
   Em outras circunstncias, teria achado graa da seriedade da prpria voz, mas naquele momento estava perturbada, sua pele parecia arder onde Jaime a tocara.
   Os vinhedos ficaram para trs e agora atravessavam uma floresta de pinheiros. Em alguns lugares era muito densa e as rvores bloqueavam o sol.
   Jaime no foi at a cidade, indo diretamente para o mar. Quando passaram perto do hotel que estava sendo construdo, Shelley falou num impulso:
   -  uma pena que estejam estragando esta regio com uma coisa assim. Parece to tranqilo aqui.
   -  uma rea rural muito tranqila, ou era, mas o hotel trar mais empregos e dinheiro.
   - Mas assim mesmo acho que no deveriam constru-lo. - Jaime encolheu os ombros e parou junto  vila.
   - Talvez, mas no se pode v-lo da quinta. 
   A vila era muito menor do que a quinta e a porta de entrada dava para um ptio interno. Os vasos de barro estavam cheios de flores e formavam manchas coloridas 
contra as paredes brancas, o ptio era pequeno, mas havia uma mesa e cadeiras e num canto uma primavera dava sombra. 
   - Vamos entrar? - Shelley quase esquecera a presena de Jaime. Ele se mantinha calado, como se soubesse que ela estava imaginando seu pai sentado ali. 
   - Ele costumava pintar no terrao do andar de cima - disse com voz suave. - Em geral, pinturas marinhas. Eram muito procuradas, mas um dia ele me disse que pintava 
mais por prazer do que por outra coisa. Considerava-se melhor homem de negcios do que pintor.
   Jaime tocou seu brao e Shelley seguiu-o para dentro da casa, que estava s escuras. Ele acendeu as luzes.
   As janelas de madeira impediam a entrada da claridade. A moblia da sala era simples. Tinha um sof de madeira, com almofadas recobertas com tecido de algodo 
em cores vivas, que davam uma nota alegre ao ambiente. 
   - A vila  bem pequena - disse Jaime. - Tem somente esta pequena sala de visita, sala de jantar e a cozinha. Vou mostr-las depois a voc. H outra coisa que 
gostaria que visse.
   Curiosa, Shelley seguiu-o subindo a escada. Havia trs portas, mas a sua ateno estava voltada para os quadros que cobriam quase cada polegada da parede do hall 
estreito e comprido.
   Sem poder acreditar, continuava a olhar para eles, um aps o outro. Mal conseguia respirar e seu corao batia acelerado dentro do peito. Foi at o primeiro quadro 
e tocou-o com dedos trmulos. Seus olhos encheram-se de lgrimas ao tentar ler a inscrio.
   Atrs dela, ouviu Jaime dizer em voz baixa.
   - Havia outro, o primeiro que ele fez, mas eu o destru. Tinha cime dessa menina desconhecida que tomava tanto tempo e ateno do papai Phillip. Pensei que fosse 
ficar zangado comigo, como minha me ficou, mas ele somente ficou muito triste. Seu pai os pintou porque era a nica coisa que tinha de voc. Um para cada ano, desde 
que soube da sua existncia. Pintou um todos o anos procurando adivinhar como estava crescendo, mudando. 
   Foi at o ltimo quadro e tirou-o da parede levando-o para perto dela, segurando-o a fim de poder confront-la com o quadro.
   -  muito parecido, no acha?
   Ela concordou, emocionada demais para falar. Ali, naquele pequeno espao, estava a prova do amor do pai, representado pelos quadros que pintara dela.
   - O homem que lhe falou sobre voc, e que foi vizinho da sua av durante algum tempo, procurou ajudar seu pai na busca, quando no conseguiu encontr-la, enviou 
fotos dos seus prprio filhos, onde voc tambm estava. Seu pai disse que voc era muito parecida com sua me. Penso que foi isso que o ajudou a imaginar como ficaria 
quando crescesse.
   Shelley apenas concordava, sem poder falar. A semelhana do quadro com ela era quase incrvel. Embora o cabelo no fosse bem igual, mais curto e mais escuro, 
como o de sua me havia sido.
   - Voc entende agora por que eu estava to magoado quando chegou, to determinado a pensar o pior? - perguntou Jaime com voz embargada. - Quando adolescente, 
eu tinha cime de voc, embora esse cime tivesse desaparecido quando me tornei adulto, algum ressentimento ainda restava. Pode perdoar-me?
   Shelley inclinou a cabea. No queria que visse as lgrimas.
   Sentia-se muito emocionada com o que seu pai fizera. Queria ficar sozinha para olhar a sua galeria de quadros, mas ao mesmo tempo estava com medo. Medo da sua 
prpria emoo. Se Jaime no estivesse ali com ela, teria se desesperado. Como explicar o que sentia? 
   - Shelley?
   Ela no respondeu. Apenas olhava para ele. Shelley...
   Ela sabia, antes mesmo que se aproximasse, que a tomaria em seus braos. As mos seguravam-na com fora e o calor dos lbios nos seus era to inesperado, que 
por um momento ficou tensa. Jaime levantou a cabea e olhou para ela.
   - Eu quero voc, Shelley - disse com voz rouca. - Eu quero voc.
   O desejo parecia domin-lo outra vez. Seu beijo tornou-se mais profundo, depois moveu os lbios at o pescoo dela, e sua mo afastou o decote da blusa para acariciar-lhe 
a pele.
   Shelley tremeu ao sentir-lhe as carcias e no entendia como o simples toque das mos desse homem pudesse ser to excitante. Seus seios doam, sentia os mamilos 
intumescidos sob o suti. Quando ele introduziu a mo dentro da blusa dela e acariciou-lhe os seios, ela tentou, em vo, dominar o gemido de prazer que lhe subiu 
 garganta.
   Jaime tentava abrir os botes da blusa, puxando-os com impacincia. Ansiosa, encostava-se no corpo dele, consciente de que deveria estar chocada com o que ele 
estava fazendo. Sabia que deveria impedi-lo, ao invs de encoraj-lo, mas ao sentir as mos em seus seios, no tinha mais foras para controlar o prazer que sentia. 
- Eu a quero...
   As palavras saram roucas e indistintas, queimando sua pele, enquanto os lbios desciam pelo pescoo e sobre o colo macio.
   - Eu a quero aqui... agora... - Os lbios tocaram um mamilo e ondas de prazer percorreram-lhe o corpo. 
   - Eu o quero tambm...
   Shelley nem percebera que pronunciara as palavras at que Jaime a soltou. Cuidadosamente, fechou-lhe o suti e abotoou a blusa. O rosto dele estava corado, mas 
no tanto quanto o dela. Havia um brilho de satisfao em seus olhos. A rapidez com que ele se controlou fez com que Shelley se sentisse desajeitada e muito inexperiente. 
Por que admitira seu desejo? Sentiu um arrepio e se afastou dele.
   - Estou indo muito depressa, no ? Deve perdoar-me, querida, mas estou apaixonado desde que voltei da Frana e vi o quadro que seu pai pintou de voc com vinte 
e um anos.
   - Voc quer dizer que se apaixonou por um quadro?! - Conseguiu falar com naturalidade, procurando no deixar que percebesse como estava chocada. Uma declarao 
de amor era ltima coisa que esperava.
   - Talvez. Mas posso lhe assegurar que normalmente no sou to... impetuoso quando acabo de conhecer algum: Ainda tem medo de mim?
   Shelley sentia-se perturbada demais para mentir ou esconder se sentimentos.
   - Eu no costumo ter casos - disse a ele com sinceridade, fazendo um esforo para encar-lo sem corar. - Ns mal nos conhecemos, Jaime. Acho tudo isso muito srio 
para ser encarado com precipitao...
   - Muito bem, vamos tentar ir mais devagar. Nos conhecer melhor... Mas no pode negar que o sentimento existe, querida. Para uma mulher que no gosta de ser tocada...
   O rosto dela ficou imediatamente vermelho.
   - Acho melhor lev-la de volta  quinta, do contrrio posso esquecer de que lhe disse para irmos devagar.
   Observou-a e perguntou.
   - O que foi? Estou enganado? No sente o mesmo que eu?
   - No... quero dizer, sim...  que tudo me parece to inesperado. Voc no  o tipo de homem que se apaixona assim, principalmente por uma pessoa como eu. Eu... 
- Como poderia explicar suas dvidas, seu receio de que estivesse apenas fingindo desej-la.
   - Voc est enganada, eu sou exatamente esse tipo de homem e, alm disso, eu me apaixonei por voc quando tinha vinte e um anos.
   Percebendo a confuso dela, Jaime segurou-lhe o brao e levou-a at a escada.  
   - Antes de descermos ...
           Encarou-o e sentiu seu olhar apaixonado.
    - Eu queria vir aqui com voc para que visse os quadros. Um dia talvez poderemos mostr-los aos nossos filhos. 
   Riu ao ver que ela enrubescia. 
   - Gosto de v-la corar, Shelley. Demonstra que no  to fria e indiferente aos meus sentimentos como quer dar a entender.
   Era isso que aparentava? Podia ser tudo, menos fria e indiferente quando se tratava dele. A situao parecia-lhe to irreal. Jaime apaixonado por ela... desejando-a... 
uma sensao de pnico invadiu-a. Sentiu um aperto na garganta e ficou contente por ele ter dito que fariam tudo devagar. Precisaria de tempo para adaptar-se  situao. 
Tempo para acreditar que ele a amava e para conhec-lo melhor.
   
   
CAPTULO V
   
   Embora nada tivesse sido comentado, Shelley sentiu que a condessa sabia e aprovava o novo relacionamento entre ela e Jaime e parecia ter certeza de que iria com 
eles para Lisboa.                
   J telefonara para Londres e acertara com a firma sobre a licena. Tinha direito a frias atrasadas e seu chefe assegurou-lhe que no havia motivos para preocupar-se 
com a sua ausncia.           
   Trs dias aps a sua visita  vila, Shelley estava no terrao do seu quarto quando viu Jaime entrando no ptio. Estivera trabalhando a manh toda nas adegas onde 
o vinho era armazenado, verificando tudo antes de receber a nova safra. Tomavam o caf da manh juntos todos os dias e a condessa e Carlota somente apareciam aps 
a partida de Jaime. Estava aprendendo sobre o trabalho na quinta, e o mais importante, tambm aprendendo a conhec-lo.
   Sentia-se feliz como jamais sonhara ser. Entretanto, sob esse sentimento havia insegurana. Temia que essa felicidade fosse efmera e pudesse facilmente lhe ser 
arrebatada. Tinha a sensao de que o controle da sua vida fugira-lhe das mos.
   Naturalmente sabia que a insegurana que sentia era motivada por aqueles anos passados ao lado da av, que, com a sua amargura, destrura-lhe aos poucos a segurana. 
Mas ele dizia que a amava. Demonstrava seus sentimentos cada vez que olhava para ela ou a tocava. Entretanto...
   "Entretanto o qu?", pensou com impacincia, e viu Jaime olhando para o terrao.
   - Vou inspecionar os vinhedos. Quer vir comigo?
   - No sei montar muito bem... Daria trabalho a voc... - Como sempre, estava dividida entre o desejo de estar com ele e o medo de que seu amor por ela fosse algo 
irreal e, portanto, no confivel.
   Viu sua expresso de desagrado e pensou em mudar de idia e aceitar o convite, porm era tarde. Ele j sara do ptio. Era tolice ficar desapontada, j que teria 
oportunidade de v-lo  hora do almoo. Continuou a arrumar as malas para a viagem a Lisboa.
   Pretendiam partir pela manh. Carlota passara horas falando sobre os prazeres que as esperavam ao chegar  capital. Como qualquer adolescente, era fantica por 
moda e queixava-se da nica butique na cidade mais prxima. S tinha coisas fora de moda. Carlota tambm confiara a Shelley que achava a vida no Algarve e os seus 
habitantes muito antiquados. Ainda na noite anterior, enquanto examinava os vestidos que Shelley estava colocando na mala, comentara:
   - Aqui eles ainda arranjam casamentos.  realmente arcaico. Se uma jovem  vista ao lado de um rapaz, e ele no for seu noivo, estar com a reputao arruinada 
- fez uma careta. - Lisboa  muito mais moderna. Eu quero freqentar a universidade, mas no sei se mame vai concordar. Ela tem muito preconceito a respeito dessas 
moas que seguem carreiras...
   Sentindo que estava procurando uma aliada, Shelley encontrou uma sada diplomtica, aconselhando-a a falar com Jaime. Pessoalmente, simpatizava com o desejo dela 
em ter uma carreira e ser independente, mas reconhecia que ouvira apenas um lado da histria.
   Estava pensando em Carlota quando viu a porta abrir-se e ento descobriu que no era ela, mas Jaime, que entrava em seu quarto.
   - O qu...
   - Vim busc-la para andar a cavalo comigo. E no repita que no sabe montar e que vai me dar trabalho! - Aproximou-se dela e colocou a mo em sua nuca, sob os 
cabelos, forando-a a levantar a cabea.
   Ela podia sentir-lhe o calor do corpo, e ficou tensa, o que fez com que seu corao disparasse. Isso sempre acontecia quando ele se aproximava.
   - Quem fez com que perdesse a autoconfiana e se tornasse to insegura, querida? Um homem?
   Ela sacudiu a cabea negando, perturbada pela carcia sensual dos dedos de Jaime.
   - Foi minha av. Quando eu era criana, pensava que ela me odiava, mas percebo agora que era o dio contra o meu pai que a fazia agir assim.
   - Ento acredite que no existe algo que eu deseje mais do que t-la ao meu lado... E que voc  a pessoa mais importante na minha vida.
   Shelley desviou os olhos do rosto dele. Sentia-se abalada pela emoo que percebia em sua voz. Quando ele ficava assim to perto, no conseguia pensar.
   Mas como era possvel que um homem to incrivelmente sensual pudesse desej-la? Ela no tinha experincia... no era to bonita assim...
   - Para onde vai o seu pensamento quando fica to quieta? - Os dedos agarravam seus cabelos com fora.
   - Est me machucando!
   Sua expresso mudou e a dureza abandonou seus olhos e foi substituda por um ar desolado.
   - Voc tambm me machuca quando tenta colocar essa distncia entre ns, Shelley. No entende que sacrifcio  para mim t-la to perto, morando em minha casa, 
sentada  minha mesa, entretanto sem compartilhar a cama comigo  noite?
   A violncia controlada em sua voz fez com que tremesse e ficasse tensa quando as mos agarraram seus ombros.
   O que estava acontecendo com ela? Ela o amava?  claro que sim, como poderia evit-lo? E ele a amava. Amava e desejava. Mas por qu? Como um homem como Jaime 
poderia desejar uma mulher como ela?
   - Est fazendo isso de novo. Est tentando fugir de mim. - Sentia-lhe a frustrao, pela maneira como apertava seus ombros.
   - Jaime, eu... por favor. No me apresse. Preciso de tempo. - Precisava mais do que isso. Precisava chegar a um acordo quanto aos seus prprios medos e dvidas.
   - Voc quer tempo. - Suspirou, passando a mo suavemente pelo rosto de Shelley. - Como seus lbios tremem ao meu contato! Voc no sabe como eu desejo sentir 
seu corpo vibrar sob o meu, ouvi-la gemer de amor e saber que me pertence!
   A sensualidade  das  suas palavras  evocaram imagens  que enlouqueciam-lhe os sentidos. Ele prendeu o queixo em sua mo e com o polegar acariciava seu lbio inferior.
   Uma compulso que no conseguiu controlar fez com que passasse a lngua em seu dedo. Jaime afastou-se violentamente, fazendo com que ela se assustasse.
   - Voc tem idia do que provoca em mim? - As palavras foram ditas com emoo. - Eu a quero. Eu a quero agora. Quero sua boca e suas mos em cada parte do meu 
corpo. Quero o seu desejo. Quero seu corpo e sua alma, mas acima de tudo quero seu amor, e estou ficando louco de tanto me controlar para no peg-la em meus braos 
e lev-la para a cama agora, e demonstrar com o meu corpo o que no consigo dizer com palavras. Deixe-me contar a minha me que queremos nos casar, Shelley.
   - No. Ainda no!
   No sabia porque dissera aquilo. No havia nada que desejasse mais do que ser a esposa de Jaime, mas sentia muito medo e desconfiana por esse presente que a 
vida lhe oferecia. E se aceitasse e, depois de casados, Jaime descobrisse que se enganara, que no a amava, que fora apenas um entusiasmo passageiro? Um sonho que 
tivera com um quadro quando era ainda um jovem cheio de ideais? Os sonhos no tinham nada a ver com a realidade e no poderia casar-se com ele para depois perd-lo.
   - Eu preciso de tempo, Jaime - implorou. - Eu no sou como voc... eu no tenho a sua experincia...
   - Pensa que eu no sei?  isso que a preocupa?
   - Em parte - disse com sinceridade. - Torna impossvel ficarmos em p de igualdade.
   - Tenho vontade de sacudi-la, Shelley. Pensa que faz alguma diferena? Admito que conheci vrias mulheres, mas nunca disse a nenhuma delas, o que disse a voc. 
No entende isso? Voc  a primeira mulher com quem desejei casar-me. Para ser minha companheira na cama e na vida. Hoje voc recusou-se a sair a cavalo comigo, 
alegando no saber montar to bem como eu. Ser que um dia vai recusar-se a fazer amor comigo pelo mesmo motivo? Tem mesmo tanto medo da vida? Do amor? No confia 
em mim?
    claro que confiava. Ou no?
   - No posso evitar de agir assim, Jaime. No tenho a mesma segurana que voc.
   - Ento comece a ter - disse ele, tomando-lhe o rosto entre as mos. - Prometi que no vou apress-la e cumprirei a promessa. Mas tambm prometo que vamos ser 
marido e mulher, Shelley, mesmo que eu tenha que arrast-la at o altar. Voc  muito teimosa. Acho que sabe que me ama, mas recusa-se a admiti-lo. Mas eu a ouvirei 
dizer isso, mesmo que tenha que esperar at a nossa noite de npcias.
   Era nesses momentos que ela percebia a complexidade da mistura das duas raas que havia nele. Sentiu um arrepio. Quase desejava provoc-lo a... fazer amor com 
ela. Ficou envergonhada diante dos seus pensamentos.
   - Vista uma cala jeans e venha comigo. Prometo arranjar um cavalo manso. Inspecionar os vinhedos faz parte do meu trabalho, Shelley. Faz parte da minha vida 
e quero que compartilhe isso comigo. Venha.
   Como poderia recusar?
   Jaime estava  sua espera no estbulo, conversando com o empregado que segurava as rdeas de um lindo cavalo rabe.
   - Esta  Mimosa - disse Jaime, indo ao seu encontro. - Ela  muito educada e mansa. Veja como olha para voc.
   Era verdade. A gua tinha olhos castanhos muito meigos, que olhavam para ela com uma expresso que inspirava confiana.
   Shelley j montara h alguns anos atrs, durante umas frias num dos orfanatos onde estivera. Jaime ajudou-a a montar, enquanto Mimosa mantinha-se imvel.
   Saram juntos do estbulo e Shelley sentiu-se mais confiante.
   Havia um prazer muito especial em ficar a ss com Jaime. Em estar ao seu lado, ouvindo a sua voz enquanto explicava os vrios estgios da produo da uva. A safra 
ainda no estava pronta para ser colhida, mas sentia o cheiro no ar. Uma leve brisa refrescava um pouco o calor da manh, agitando-lhe os cabelos. Sentia-se to 
feliz que voltou-se para Jaime e, impulsivamente, estendeu a mo para toc-lo. Imediatamente ele pegou-a, levando-a aos lbios. Sentiu-lhe o calor da lngua em seus 
dedos e estremeceu de prazer.
   - Viu? Voc sente isso tambm...
   Ainda perturbada com a reao, viu Jaime desmontar e aproximar-se dela. Quando a ajudou a descer da sela, sentiu-se fraca e permaneceu abraada a ele. Aquele 
doce contato a deixava inebriada. Sem se conter, Jaime a beijou com sofreguido. Suas mos ansiosas tiravam-lhe a blusa, o suti e Shelley sentiu o sol em seus seios. 
A camisa dele estava entreaberta e a necessidade de toc-lo transparecia em seus olhos.
   - Tire a minha camisa - disse ele junto ao seu ouvido, afastando-a dos cavalos e deitando-a na grama.
   Essa pessoa no podia ser ela, fazendo amor ao ar livre, mas nada mais importava alm do desejo louco de continuar, de t-lo junto a si.
   Seus dedos tremiam enquanto desabotoava a camisa. Ela sentiu a tenso que o dominava quando chegou ao ltimo boto e abriu a camisa para poder admirar-lhe o corpo. 
Sua pele era bem mais escura que a sua. Seu peito tinha plos escuros que ela tocou timidamente.
   Ouviu-o gemer. Ele pegou sua mo pousando-a na altura do corao para que sentisse como batia em descompasso. Depois atraiu-a de encontro ao peito para beij-la.
   Estavam nus da cintura para cima... Pele contra pele... Shelley prendeu a respirao ao sentir o contato daquele corpo forte. Ficou tensa quando Jaime afastou-se 
um pouco dela.
   Seus lbios beijavam-lhe o pescoo, acariciando-a devagar, com extrema ternura. Passava seu polegar sobre a veia que pulsava demonstrando sua excitao.
   Ele no a apressava. Com a boca, percorria-lhe suavemente os seios.
   Deveria estar contente por ele fazer tudo devagar, mas no estava. O calor mido daquela boca, enquanto ele acariciava sua pele, tornara-se uma tortura. Seu corpo 
todo doa, dominado por uma necessidade primitiva e desconhecida.
   Quando a lngua ardente tocou um dos mamilos, seu corpo arqueou-se e seus dedos apertaram os ombros de Jaime com fora.
   - Estou indo muito depressa, meu amor?
   A voz rouca era quase irreconhecvel, Shelley teve vontade de gritar de frustrao ao sentir que ele se afastara. Em seguida, comeou a beijar-lhe a orelha. Ela 
sentiu um arrepio, agarrando-se a ele quando beijou seus lbios entreabertos.
   Ansiava para que a beijasse realmente... que a tocasse de fato. Queria sentir todo o peso do corpo msculo sobre o seu para acalmar a dor que pulsava dentro dela.
   Como  que no percebia o que ela estava querendo? Um arrepio sacudiu seu corpo, uma necessidade que dominava tudo possuiu-a. Agarrou a cabea de Jaime encostando-a 
nos seios. Seu corpo tremia com ansiedade e desejo.
   -  isso que voc quer?
   - Sim... sim! - No reconhecia a prpria voz. Parecia-lhe to estranha como esse desejo que a impelia, mas o seu espanto desapareceu com o prazer de sentir novamente 
os lbios em seus seios, suaves ou provocantes, mas como ansiava por senti-los. Ela no pde conter um grito de prazer, surpresa diante da reao que seu corpo esboava. 
Estava envolta num mar de deliciosas sensaes, vibrando de um modo que a surpreendia... Queria que essa doce intimidade continuasse para sempre. Ela queria mais, 
muito mais...
   Estremeceu quando Jaime abriu o zper da sua cala e pousou a mo possessivamente sobre a sua pele. Por um momento foi o bastante para acalmar o desejo que a 
atormentava.
   Ela gemeu de prazer quando Jaime, parecendo ler seus pensamentos, deitou-se sobre ela que, excitada, arqueava o corpo ansioso contra o dele. As carcias aumentavam 
o fogo que queimava em seu ntimo. Suas mos moviam-se febris sobre as costas de Jaime, tentando expressar o que sentia.
   De repente, de algum lugar do vale, ouviu-se o rudo do escapamento de um carro quebrando o silncio. Jaime afastou-se dela sobressaltado. 
   Passou as mos pelos cabelos e sentou-se, olhando para ela, sacudindo a cabea.
   - Meu Deus! Quase fao amor com voc aqui como um menino impulsivo...
   Sua voz soou rouca e ele parecia aborrecido, o que fez com que Shelley se sentisse embaraada ao perceber-se quase nua. Sentou-se tambm, estendendo a mo para 
apanhar as roupas, mas Jaime a interrompeu. Suas mos prenderam-lhe a cintura. Depois, passou-as lentamente pelo corpo at chegar aos seios. Abaixou-se e beijou 
primeiro um e depois o outro mamilo rseo. Shelley viu que ele estava tremendo quando lhe entregou as roupas e ajudou-a a vestir-se.
   - Acho que voc estava certa, querida - murmurou ao ajud-la a montar -, em no querer vir comigo hoje. Talvez seja melhor no ficarmos mais sozinhos enquanto 
no estiver resolvida a casar-se comigo.
   Era o momento de dizer-lhe como se sentia e admitir que o amava e desejava, mas algo fez com que se calasse. Sentiu que ainda estava presa  atrao fsica... 
confusa demais pelo que acontecera e pela intensidade do seu desejo por ele. No estava acostumada a ter essas reaes, e precisava de tempo para examinar e resolver 
a situao. Enquanto voltava para a quinta, estava assustada ao perceber que tornara-se ainda mais vulnervel... e que naquele momento teria ainda mais a perder.
   Eles amavam-se. Jaime o demonstrara; ento, por que assim mesmo no podia acreditar? Por que estava to amedrontada e to cheia de dvidas? Seria porque tudo 
acontecera muito depressa? A maioria das mulheres sonhava em ser arrebatada pelo amor e ser desejada por um homem como ele.
   Era bom que estivessem indo para Lisboa. L ela e Jaime no teriam muitas oportunidades para ficar a ss. Poderiam se conhecer melhor.
   Na manh antes de partirem, Shelley procurou falar com Jaime mais uma vez sobre a vila. Estava ainda decidida a devolv-la  famlia, mais especificamente  condessa, 
pois a casa pertencera-lhe antes de casar-se com o seu pai, mas ele pareceu aborrecido pelo fato de ela voltar ao assunto.
   - Por favor, no diga nada  minha me a respeito da vila. Isso iria deix-la preocupada. Aps a morte do seu pai, ela quase teve um colapso e, embora parea 
melhor, qualquer coisa poder provocar uma recada. Se falar sobre a vila, far com que se lembre do seu pai.
   O que dissera fazia sentido; entretanto, Shelley tinha a impresso de que ele estava escondendo algo.
   Queria fazer mais perguntas, porm Carlota entrou na sala para dizer que as malas j estavam no carro e que ela e a me j estavam prontas.
   Chegaram a Lisboa no fim da tarde. Shelley, que viera no banco da frente com Jaime, estava perturbada demais pela presena dele para prestar ateno  paisagem, 
mas agora que entravam na cidade, olhava pela janela com interesse.
   Fora do porto desta cidade,  bordo do Tagus, que Vasco da Gama partira para a sua clebre viagem pelo Cabo da Boa Esperana para as ndias, pensou ao observar 
os imponentes edifcios e o trnsito organizado, mas todas as construes medievais tinham sido destrudas pelo terremoto que sacudiu esta parte do mundo em meados 
do sculo XVIII.
   Atravessaram o centro da cidade e depois entraram numa avenida arborizada. Jaime saiu dessa avenida principal e foram para uma rua bem mais sossegada. Construes 
barrocas indicavam que se tratava de um bairro aristocrtico e Shelley no se surpreendeu quando Jaime, estacionou  frente de uma delas.
   - Esta casa pertencia  famlia do meu primeiro marido - disse a condessa para Shelley, enquanto Jaime a ajudava a descer do carro.
   A entrada principal dava para um grande hall, com teto muito alto e pouco iluminado.
   - Os empregados levaro as nossas malas para os quartos - disse Carlota. - Maria preparou um lanche para ns. Ela sabe que mame sempre chega com fome aps a 
longa viagem. - Voltou-se e sorriu para o irmo. - Com certeza, Jaime vai nos deixar agora. Ele tem um apartamento aqui em Lisboa, onde prefere ficar.
   - No dessa vez, irmzinha.
   Carlota olhou-o surpresa, mas depois pareceu entender.
   - Oh, j sei por qu. Quer ficar aqui para estar perto de Shelley. 
   Ela sentiu que enrubescia diante da insinuao de Carlota, mas Jaime no parecia preocupado.
   - Tem razo,  por isso. E logo espero ficar mais perto ainda. - Carlota olhou para Shelley com os olhos brilhando de alegria.
   Voltou-se para a condessa e viu que ela tambm estava sorrindo. O medo que sentira antes aumentou e, olhando para Jaime, disse:
   - Voc prometeu que no me apressaria. - Discretamente, a condessa e Carlota tinham-se afastado.
   - Eu sou apenas um homem apaixonado. Voc no pode culpar-me por estar impaciente. Eu quero voc em meus braos... em minha cama.
   Ela sentiu que corava violentamente quando ele inclinou-se e murmurou em seu ouvido exatamente o que desejava fazer com ela.
   Podia ser inexperiente, mas isso no impedia que seu corpo ansiasse pelas carcias dele. Por um instante, desejou que a tomasse nos braos e a carregasse para 
a cama, cumprindo as promessas que acabara de murmurar ao seu ouvido, mas imediatamente controlou-se, afastando-se dele.
   Meia hora depois, no quarto que lhe fora reservado, preparava-se para o jantar e pensava no que lhe dissera. Fechando os olhos podia quase sentir-lhe as mos 
acariciando seu corpo...
   Acabou de vestir-se e retocou a pintura do rosto. Jaime no fazia segredo do fato de desej-la. No sabia por que, e isso a preocupava. No era o seu desejo que 
temia, ao contrrio, era a falta de lgica de tudo isso. No duvidava por um momento que Jaime fosse extremamente ardente e impetuoso, mas desde o primeiro encontro 
sentiu nele um grande controle, o que demonstrava que era um homem que sabia esperar pelo que queria, e como dominar seus desejos. Mas sentia que a estava apressando 
para o casamento, assustando-a e dominando-a completamente com a sua sensualidade. Mas por qu? Por que a amava? Mas ela era uma pessoa to comum. Sua av tinha 
razo quando dizia que era uma criana feia, e, embora fosse agora uma mulher razoavelmente atraente, sabia por experincia prpria que no possua a aura de sensualidade 
feminina que provocava o desejo dos homens.
   Mas por que estaria to ansioso para casar-se com ela? E por que ela duvidava de si mesma e dele? Mas que motivo poderia haver para desej-la a no ser a herana 
do seu pai, embora aquilo fora to pouco e Jaime possusse tantos bens? O que havia de verdade na origem do seu medo? Seria somente a sua insegurana, ou era o receio 
de que Jaime pudesse casar-se com ela por causa da vontade expressada por seu pai?
   Deveria acreditar na sua paixo, mas as dvidas persistiam.
   Durante o jantar, manteve-se retrada e em silncio. Percebia que Jaime a observava, mas sentia-se incapaz de tomar parte na conversa.
   Foi a condessa que quebrou o seu silncio, comentando que a famlia toda estava ansiosa para conhec-la.
   - Eu tenho vrias tias e primas que costumam vir a Lisboa nesta poca do ano. Todas vo querer v-la.
   - Especialmente agora que ela vai casar-se com Jaime - disse Carlota rindo. - Ele  considerado o chefe da famlia. As tias tm procurado encontrar uma noiva 
para ele. Cada vero tnhamos que suportar um desfile interminvel de jovens pretendentes. E esse  um dos motivos porque costuma ficar no seu prprio apartamento, 
para evitar as casamenteiras.
   - Minha irmzinha est dizendo um monte de tolices.  normal que a famlia queira conhecer Shelley. Mame, eu sugiro que antes de voltarmos para a quinta, voc 
d uma recepo para eles. Se puder persuadir Shelley at l, espero que ela permita que eu anuncie o nosso noivado...
   Devia sentir-se feliz. Uma parte dela estava, mas outra continuava cheia de dvidas. Jaime devia saber que era o tipo de homem ao qual poucas mulheres resistiriam. 
Ento, qual era a pressa em formalizar seu relacionamento?
   - Voc est me apressando novamente - protestou.
   Ele estava sentado  direita. Pousou o copo de vinho e pegou sua mo.
   - Eu sei, no deveria fazer isso, mas voc faz com que me sinta impaciente, querida. Talvez se no tentasse sempre fugir de mim, eu no sentiria tanta necessidade 
de persegui-la. Afinal de contas, o homem  um caador...
   - E a mulher  a caa? Eu julguei que hoje em dia a maioria dos homens pensasse o contrrio. Eles procuram evitar o casamento ao invs de procur-lo.
   - Se isso a faz sentir-se mais feliz, eu prometo que durante a prxima semana no vou mencionar a palavra casamento, se prometer sair comigo para eu lhe mostrar 
Lisboa.
   Ele sabia que ela concordaria e, vendo os sorrisos de Carlota e da condessa, sabia tambm que, quando voltassem para a quinta, estaria noiva de Jaime, quer ela 
quisesse ou no.
   Todos estavam cansados aps a longa viagem de carro, menos Jaime, que disse ter um trabalho a fazer. Quando Shelley estava se preparando para deitar, ouviu baterem 
 porta.
   A princpio, pensou que poderia ser Jaime e seu corao disparou, mas, ao abri-la viu que era a condessa.
   Ela entrou e sentou-se. Estava corada e o prazer em seus olhos era evidente ao dizer a Shelley como estava contente com a perspectiva de t-la como nora.
   - Era o que seu pai sempre desejou. O seu sonho est se realizando.
   Shelley sentiu um calafrio.
   - Espero que Jaime no queira casar-se comigo somente porque era esse o desejo do meu pai.
   A condessa pareceu espantada e depois ficou embaraada.
   - No...  claro que no. Jaime adorava seu pai, mas ele a ama, minha querida. Qualquer um pode ver isso.
   Sim, Jaime esforava-se para tornar os seus sentimentos bem evidentes, em pblico e quando estavam a ss. Ser que algum poderia fingir desejo a tal ponto? Um 
homem sensual como ele poderia talvez convencer-se de que sentia desejo por uma mulher que no amasse, se tivesse um motivo forte para isso? E quanto  herana? 
Bem, j sabia que Jaime era um homem rico, at demais, para cobiar uma pequena vila e uma porcentagem nfima sobre os lucros dos vinhedos. No havia motivo para 
dvidas. Por que ento essa sensao de mal-estar?
   A condessa levantou-se e Shelley percebeu que ela parecia embaraada.
   - Minha querida, eu sei que na Inglaterra os costumes so diferentes, mas, por favor, no se ofenda com o que vou lhe dizer. Aqui em Portugal, uma jovem solteira 
e mesmo noiva no tem a mesma liberdade que as jovens do norte da Europa. Meu filho  um homem ardente. - Encarou Shelley e enrubesceu. - Por favor, entenda e me 
perdoe quando eu digo que no posso concordar com qualquer relao fsica entre vocs antes do casamento. Mesmo que no fosse por Carlota, a criadagem comenta e 
Jaime tem muitas tias e primos que so ainda mais antiquados do que eu. Voc me entende, no ?
   A condessa parecia to embaraada que Shelley sentiu que no poderia se ofender.
   - No duvide do amor de Jaime por voc - disse a condessa ao beij-la. - Est estampado em seu rosto cada vez que a olha.
   Quando ficou s novamente, Shelley sentou-se na cama. Por que Jaime dissera  sua me e irm que queria se casar, sem discutir o assunto com ela antes? Ele deveria 
saber que isso levaria a complicaes que ela no estava preparada para enfrentar. Parecia at que ele estava determinado em coloc-la numa situao que a forasse 
a casar-se com ele. Mas era ridculo.
   Ao adormecer teve um pesadelo, em que estava guiando o carro de Jaime, perdera o controle da direo e tentava manter a estabilidade nas curvas sinuosas. Sabia 
o tempo todo que tanto ela como o carro poderiam ser destrudos a qualquer momento por uma fora que a deixava sem controle sobre a prpria vida.
   Quando se lembrou do sonho, pela manh, acabou achando que talvez fosse uma profecia...
   
   
CAPTULO VI
   
   Durante a semana seguinte, Shelley no tivera oportunidade de ficar a ss com Jaime.
   A condessa decidira comprar-lhe vestidos novos. Ela e Carlota passavam as manhs nas lojas onde a condessa era cliente, voltando para casa somente para o almoo.
   Jaime tinha vrios compromissos, aparentemente relacionados com os negcios da quinta, dos quais quase sempre voltava no final da tarde. Parecia distante, pensativo.
   At o fim da semana, Shelley j tinha conhecido grande parte da famlia e, embora tivesse sido tratada com muita delicadeza, sentia a curiosidade atravs das 
perguntas casuais. No levou muito tempo at que percebesse que alguns membros da famlia no aprovaram o casamento da condessa com um ingls. Imaginava o que diriam 
se soubessem do casamento de Jaime com a filha do mesmo ingls. Durante a semana, comeara a encarar o casamento como um fato consumado e no uma possibilidade remota, 
embora ainda necessitasse de um tempo para acostumar-se com a idia.
   Na quinta manh aps a chegada, Jaime anunciou que pretendia passar o dia todo com ela para visitar a cidade. A condessa programara uma visita a uma velha tia 
naquela tarde, que naturalmente foi cancelada. Aps o caf, com uma saia branca de algodo e uma blusa de malha, Shelley entrou na Mercedes com Jaime, pronta pra 
conhecer Lisboa.
   Durante a manh, visitaram o porto e seus monumentos. Jaime dava informaes sobre a histria da cidade, fazendo-a rir com os seus comentrios espirituosos sobre 
os aventureiros que trouxeram tanta riqueza para Portugal.
    hora do almoo, j se sentia muito  vontade com ele, e contente por ter a oportunidade de conhecer essa faceta da sua personalidade. Jaime reservara uma mesa 
num pequeno restaurante calmo e simptico.
   Conversaram muito durante o almoo e ele mencionou o pai, sendo franco ao comentar o fato de que nunca tivera afinidade alguma com ele.
   - Achava que as crianas no deveriam ser vistas nem ouvidas. Eu parecia sempre irrit-lo. Era um homem que acreditava em castigos fsicos.
   Viu o olhar chocado de Shelley.
   - Talvez no tenha sido to terrvel assim. Eu passava a maior parte do tempo no colgio interno, mas me preocupava ao ver como fazia minha me sofrer. Quando 
ele morreu, fiquei contente. Isso a deixa chocada?
   - No. Nem um pouco. Eu sentia o mesmo quando a minha av morreu. Na ocasio, no sabia o que a sua morte significaria para mim. Eu era muito velha para ser adotada, 
e fui levada de um orfanato para outro at atingir a idade para freqentar a universidade. S mais tarde percebi que a minha av no gostava de mim, mas no tinha 
culpa disso. Amara minha me e a perdera.
   - Mas ela foi culpada de enganar voc e seu pai.
   - Sim, mas no quero ficar me amargurando com isso e no poderei trazer o passado de volta. 
   Jaime pegou sua mo.
   - Seu pai foi um homem maravilhoso. Ele me ensinou a no sofrer pelo meu pai. Ajudou-me a entender que as falhas de sua personalidade eram responsabilidade exclusiva 
dele, no minha. At ento, eu me sentia culpado por no ser o filho que ele queria. Quando ficava zangado comigo, punha a culpa das minhas deficincias no meu sangue 
ingls. Achava que eu era covarde. Essa foi uma das razes porque me mandou para o colgio interno.
   Viu que Shelley ficou impressionada.
   - Os nossos filhos no sero criados dessa maneira. Eu quero que eles fiquem conosco. Voc quer filhos, no quer, Shelley? 
   Sentiu uma estranha emoo.
   - Sim, quero.
   Principalmente um filho seu, queria acrescentar, mas calou-se.
   - Se tivermos um filho, gostaria que tivesse o nome do seu pai. Shelley sentiu que ia chorar.
   - Eu gostaria muito.
   - Espero que nosso filho goste de animais. Era o nico interesse que eu tinha em comum com meu pai, mas ele no gostava realmente dos cavalos que montava nos 
jogos de plo. Vivia dizendo que eu era muito sentimental. Espero que quando nos casarmos, minha me e Carlota venham morar aqui em Lisboa. As suas amigas e famlia 
esto aqui. Quando mame tinha seu pai, viver na quinta era bom para ela, mas agora...
   No precisava dizer mais nada. Shelley podia imaginar como a quinta devia parecer vazia para a condessa sem o homem que amava.
   - Voc no ter muitos empregados l na quinta - disse Jaime. - Lusa e a me dela so empregadas da minha me e, embora eu possa pagar os empregados de que precisamos, 
no sou um homem muito rico. Mas tambm no sou pobre. A quinta tem progredido todos os anos, sempre terei dinheiro para levarmos uma vida confortvel.
   - Nem eu quero ter um batalho de empregados - disse com sinceridade. - Quero cuidar da minha casa e criar os meus filhos.
   - Que bom ouvi-la dizer isso - falou, ainda, segurando a mo dela e levando-a aos lbios, com carinho. Shelley sentiu uma sensao estranha no estmago, como 
se tivesse dificuldade em respirar.
   - Neste momento no h nada que eu deseje mais do que fazer amor com voc - disse Jaime baixinho. - No me faa esperar muito, querida. No sou um homem muito 
paciente, e a minha cama  noite  muito solitria e fria.
   Imaginou estar na cama com ele. Mas por que ainda hesitava? Sabia que o amava. Estava se tornando uma obsesso. Ele a amava, queria casar-se com ela. Subitamente 
sentiu um desejo insuportvel. Precisava dele. No podia mais esperar. Desejava-o naquela tarde... naquele momento.
   - No precisamos esperar, no ? Por que no vamos at o seu apartamento?
   Ele ficou em silncio. Quando levantou os olhos para olh-lo, viu que ele empalidecera e apertava os lbios.
   - No. No podemos.
   O tom rspido em sua voz deixou-a abalada. A humilhao que sentia pela rejeio destrura o pouco de autoconfiana que ela conseguira reunir.
   - No me olhe desse modo. No posso lev-la ao meu apartamento e fazer amor com voc como se tivssemos um caso sem importncia. Seu pai...
   Ela o encarou.
   - Por que quer casar-se comigo? - perguntou com voz embargada. - Por causa do meu pai?
   Seria essa a causa do seu mal-estar? Seria porque sentia que Jaime a desejava porque era filha do seu padrasto?
   - Claro que no! - disse secamente. - Como pde pensar uma coisa dessas? Embora tenha de concordar que esta seja uma das razes para no lev-la para a cama antes 
de nos casarmos. Pensa que desde que eu a conheci no pensei um milho de vezes como seria maravilhoso t-la nua em meus braos, dando e sentindo prazer? Pensa que 
no senti um milho de vezes o que voc est sentindo agora?
   Viu que ele estava sendo sincero e isto era tranqilizador.
   - Mesmo que voc no fosse a filha do meu padrasto, o simples fato de estar morando na casa da minha me, sendo hspede da minha famlia... eu sou portugus e 
essas coisas so muito importantes para mim, querida. Neste pas, um homem no costuma seduzir uma jovem antes da cerimnia de casamento. Depois, prometo-lhe que 
no ter que me pedir para que eu faa amor com voc.
   Ele estava fazendo amor com ela agora, pensou emocionada. S de ouvir a sua voz rouca dizendo-lhe aquelas coisas fazia com que sentisse um arrepio de prazer.
   - Acho que  a nossa primeira discusso - disse srio, e no estava mais zangado. - Quero convid-la para jantar hoje  noite e depois vamos danar. Assim poderei 
apert-la em meus braos. Voc notou como a minha me est se esforando para no nos deixar a ss?
   Ela j notara e riu ao lembrar-se do que a condessa lhe dissera. Subitamente sentiu-se calma e relaxada e falou-lhe sobre algo que pretendia fazer, mas no estava 
preparada para a reao s suas palavras.
   - Mas, Jaime, preciso voltar para a Inglaterra.
   - S depois do casamento - disse com teimosia. - Por que est to ansiosa para voltar agora? Tenho a impresso de que  para fugir de mim.
   Parecia to ciumento que teve vontade de rir.
   - J tentei lhe explicar - disse com calma. - Acho que tudo est acontecendo muito depressa. Vivendo assim to perto de voc no posso ter a perspectiva que necessito 
para habituar-me ao fato de que vamos nos casar. No  por am-lo... preciso de tempo. Eu poderia ir para casa, digamos, por dois meses, acertar tudo e depois voltar.
   Via que Jaime no estava satisfeito com a sua sugesto, mas realmente sentia a necessidade de um breve perodo de trgua antes de aceitar o casamento. A separao 
que estava sugerindo era tanto para o bem de Jaime quanto para o dela, embora achasse a sua veemncia estranha para um homem que, em todos os sentidos, parecia sempre 
to controlado.
   - Est determinada a levar adiante essa idia?
   - De voltar para casa por uns tempos? Estou. - Encarou-o. - Ns ainda no nos conhecemos bem, Jaime.
   - Eu sei que a amo - disse bruscamente. - E pensei que me amasse tambm.
   - Amo sim.
   A expresso de Jaime abrandou-se um pouco.
   - Est bem. Discutiremos isso novamente amanh.
   - Mas hoje  noite...
   - Hoje  noite no - disse com firmeza. - Esta noite  para o romance.
   - No me far mudar de idia, Jaime.
   Ele olhou para ela e sorriu. Mais tarde, Shelley lembrou-se desse sorriso e da sua prpria ingenuidade.
   Embora a condessa tivesse insistido para lhe comprar vestidos novos, no a deixara pagar por eles. O seu guarda-roupa era composto, na maioria, por vestidos e 
conjuntos para serem usados no trabalho e foi uma experincia diferente para ela comprar vestidos leves para a noite e sandlias que estavam na moda.
   Naquela noite, usou um dos vestidos novos. Era de seda azul-royal com uma blusa drapeada e saia justa que lhe marcava as linhas do corpo.
   Ao descer a escada, viu Jaime sair do escritrio vestindo um terno escuro e camisa branca.
   - Voc est linda com esse vestido! - A maneira como a olhava fez com que corasse e desejasse estar em seus braos.
   - Essa cor lhe fica muito bem.
   - Foi sua me que escolheu.
   Estavam muito formais e achou-o to nervoso quanto ela.
   - Vamos? - disse ele.
   Estavam numa das casas noturnas mais conhecidas de Lisboa. Shelley jantava fora com freqncia, embora fossem jantares relacionados com o seu trabalho. Mas agora 
era diferente, estava com o homem que amava.
   Jaime segurou sua mo enquanto seguiam o maitre que os levou para a mesa que reservara. Ficava um pouco afastada da pista de dana e da orquestra. Alguns pares 
danavam e Shelley; observava-os, enquanto Jaime falava com um garom que logo se afastou.
   A elegncia das pessoas presentes confirmou a sua impresso de que se tratava de um ambiente de luxo. Quase todas as senhoras usavam vestidos longos e jias caras, 
e os homens estavam de terno.
   O garom voltou com um balde de gelo, que colocou sobre a mesa com duas taas.
   - Encomendei champanhe - murmurou Jaime. - Espero que goste.
   Costumava beber champanhe somente nos casamentos, mas essa bebida dourada e deliciosa que tomava agora era muito diferente daquela sem sabor que tomara antes. 
Parecia danar em suas veias antes de chegar ao estmago, fazendo-a sentir uma sensao maravilhosa.
   O garom serviu-lhe uma segunda taa enquanto olhava o cardpio, mas sentia-se area demais para concentrar-se e pediu para que Jaime escolhesse para ela.
   - O champanhe deixou-me um pouco tonta para saber o que quero comer - admitiu, mas ao ver o seu olhar surpreso, acrescentou: - No costumo ser to fraca.
   - Nem eu costumo achar que uma mulher seja to dependente que no possa escolher o que deseja, mas hoje...
   Citou vrios pratos, para saber qual ela preferia e depois ambos decidiram pedir um coquetel de frutos do mar com um molho especial como entrada e depois lagosta.
   Shelley descobriu que ele tambm preferia peixe  carne e tambm que comia moderadamente.
   Discutiram seus pontos de vista quanto  alimentao saudvel e a importncia de alimentos plantados sem pesticidas, e ficou satisfeita em saber que Jaime tambm 
acreditava na importncia de uma dieta equilibrada. Contou-lhe como procurava tratar das videiras com mtodos naturais, explicando como o uso de produtos qumicos 
afetava o vinho.
   Estava to entretida com a conversa que s ento percebeu que j estava na terceira taa de champanhe.
   A chegada do coquetel de frutos do mar veio acabar com a ligeira tontura provocada pela bebida e j estava aceitando o fato de que a sua vida e o seu futuro eram 
com Jaime. Acreditava que ele a amava e que os seus temores e ansiedades eram provocados pelo que sofrera no passado e no tinham nada a ver com o presente.
   Estavam saboreando a lagosta quando foram interrompidos por uma jovem morena que se aproximara, colocando a mo carinhosamente no brao de Jaime. Tinha longas 
unhas pintadas no mesmo tom de vermelho do vestido. Os olhos castanhos observavam Shelley com desdm, enquanto Jaime fazia as apresentaes. Shelley ficou sabendo 
que era a filha de um amigo com quem Jaime tinha negcios.
   - Ora, Jaime... Ns somos muito mais do que isso - protestou, aps as apresentaes. Seus olhos frios continuavam fixando Shelley. - Tenho certeza de que a sua 
meia-irm no pensa que vive como um monge...
   Ficou tensa ao perceber a determinao da moa. Queria que ela soubesse que havia algo mais ntimo entre eles do que simples amizade. Sentiu os msculos do estmago 
se contraindo, e embora no sentisse mais sabor algum, continuou comendo.
   - Shelley e eu vamos nos casar.
   Ela pde perceber que as palavras ditas com voz calma chocaram a jovem. Seus olhos refletiram espanto e, logo depois, tornaram-se frios e implacveis.
   -  mesmo? - Sua voz era gelada. - Virou-se para Jaime. - Bem, querido... Acho que deve saber o que est fazendo. A propsito, papai quer v-lo para falar sobre 
o novo empreendimento.
   - Telefonarei na prxima semana.
   Quando se afastou, Shelley ainda sentiu o seu perfume. No conseguia encar-lo e no tirou os olhos do prato  sua frente.
   - Sofia e eu fomos amantes, como voc deve ter percebido. - As palavras foram ditas sem emoo. - Antes que me pergunte, eu lhe digo que no a amava, nem ela 
tampouco. Mas  uma mulher muito possessiva a respeito das coisas que pensa ser de sua propriedade. Espero que ela no a tenha perturbado.
   - No sou uma tola, Jaime. Sei que deve ter tido outras mulheres em sua vida.
   - Talvez... mas saber um fato e ser confrontada com ele so coisas diferentes. Se a situao fosse inversa, eu lhe asseguro que teria mpetos assassinos.
   Olhou-o surpresa.
   - Voc teria cimes de mim?
   - Voc acha isso surpreendente?  claro que sim, mas lhe asseguro que no h motivo algum para que sinta cime de Sofia. Tivemos um caso, provocado por ela, que 
j terminou h bastante tempo, mas Sofia  do tipo que gosta de armar confuses.
   As suas palavras deveriam tranqiliz-la, mas a jovem era to bonita... Por que Jaime se apaixonara por ela e no por Sofia? Todas as dvidas voltaram e o seu 
apetite desapareceu completamente. A chegada inesperada de Sofia destruiu toda a sua alegria, e Jaime parecia muito srio.
   Shelley percebeu que ele olhava para o outro lado da sala, para a mesa de Sofia.
   - No sabia que voc estava envolvido em outros negcios alm da quinta - disse, tentando afastar o pensamento de Sofia. - Em que tipo de negcios trabalha o 
pai dela?
   - Na indstria de construo. Eu vendi a ele um terreno que herdei de uma tia do meu pai. Fica bem alm da quinta. Penso que ele pretende construir ali um complexo 
hoteleiro. Bem, vamos esquecer Sofia e seu pai? Quer uma sobremesa, querida, ou prefere danar?
   O que ela de fato preferia era ir embora, mas, ao invs disso, sorriu e disse que comera tanto que j estava satisfeita.
   - Ento vou pedir caf para ns e depois vamos danar. Quero que saiba que o nico motivo pelo qual a trouxe aqui foi para segur-la em meus braos.
   Mais tarde, sentindo seu corpo junto ao dele na pista de dana, achou que Sofia tinha toda a razo para estar com raiva. Devia ser difcil perder um homem como 
Jaime. Ao pensar nisso, sentiu um arrepio, e isso fez com que ele perguntasse.
   - Est com frio?
   Sacudiu a cabea e viu a sua expresso preocupada transformar-se num olhar apaixonado enquanto murmurava:
   - Talvez esteja tremendo porque, como eu, desejaria estar comigo numa outra situao.  bom que esteja na casa de minha me, querida, pois se no estivesse, eu 
poderia ficar tentando rapt-la  moda dos mouros.
   Algo na voz dele fez com que Shelley falasse com irritao:
   - Hoje em dia as mulheres no so mais vtimas indefesas diante do desejo dos homens. Ns somos capazes de sentir e pensar por ns mesmas. Escolher nossos prprios 
amantes...
   - Isso  verdade - ele concordou com um sorriso. - Mas tambm  verdade que at hoje no existe um meio da mulher forar um homem a fazer amor com ela se no 
sentir desejo.
   Mas ser que ele poderia forjar esse desejo? Esse pensamento desapareceu quando o ritmo da msica tornou-se mais lento. Shelley podia sentir a sua virilidade 
atravs da roupa. Aquilo era real e as suas dvidas eram apenas o produto da prpria insegurana. A mo de Jaime acariciava sua cintura e subiu parando sob o seio. 
Sentiu uma sensao de vitria ao perceber a inconfundvel excitao que ele estava sentindo. Jaime e Sofia poderiam ter sido amantes, mas agora ele era seu. Instintivamente, 
encostou seu corpo no dele, afastando as dvidas, ansiosa para ficar sozinha com ele. Mas no havia sido nesse mesmo dia  tarde que lhe dissera que pretendia voltar 
para a Inglaterra, exatamente para fugir a essa atrao que exercia sobre ela? A mesma atrao que estava sentindo naquele momento...
   Sentiu a mo em suas costas, acariciando-a. Introduziu a sua sob o palet e sentiu que ele prendia a respirao.
   - Vamos sair daqui - disse asperamente.
   Mesmo que quisesse se opor, ele no lhe deixara tempo para isso. J tinham trazido o carro e Jaime fez com que entrasse com rapidez.
   Quando fechava a porta, um grupo de pessoas saa do restaurante, e Shelley reconheceu Sofia, entre elas.
   - J vo embora? - Os olhos escuros olhavam com maldade para o rosto plido de Shelley, enquanto se aproximava de Jaime. - Ns vamos agora para o Sancia's. Por 
que no vm conosco?
   - Hoje no, obrigado, Sofia...
   Afastou-se e ela teve que soltar seu brao. Shelley percebeu que estava prendendo a respirao. S de ouvir essa mulher falando com Jaime, sentira uma onda de 
cime invadi-la.
   Ao chegar em casa, parou junto  escada, confusa com suas emoes conflitantes. Uma parte dela queria que Jaime insistisse para que ficasse em Portugal e se casasse 
com ele de imediato: a outra, recomendava que agisse com cautela.
   S pelo fato de ter encontrado uma de suas ex-amantes no era motivo para que ficasse to apavorada. Jaime no escondera a verdade, e era evidente que no encorajara 
a jovem, apesar da sua insistncia. Qual deles comeara o caso? Quanto tempo teria durado?
   Ansiava para que ele a tomasse em seus braos e que a beijasse para afastar todas as dvidas. Queria fazer todas as perguntas que a atormentavam, e enquanto hesitava, 
olhou para ele.
   - Vou subir com voc, Shelley.
   - E sua me...
   Seu protesto fora instintivo, mas seu corao batia acelerado.
   -  tarde. Ela est dormindo. No me mande embora, querida. Danar com voc, apert-la em meus braos... me deixou louco...
   Ele olhava para ela, e sentiu que o seu desejo era to grande quanto o dele.
   Subiram a escada em silncio. Aps fechar a porta, ele abriu os braos e disse emocionado:
   - Venha, querida.
   Olhou-o receosa.
   - Eu no devia estar fazendo isso - disse ao abra-la, enquanto seus lbios beijavam-lhe o pescoo.
   Shelley sentiu uma enorme excitao. Era isso que desejara a noite toda.
   - Eu devia parar imediatamente e ir para o meu quarto - ele falava, sem parar de beij-la.
   - No...
   Ele pegou o rosto em suas mos.
   - No, o qu? - perguntou. - No quer que eu a tome?
   - No quero que v embora.
   Sentiu-lhe o corao bater acelerado quando voltou a abra-la.
   - Ainda hoje  tarde eu dizia que no faria isso. - As palavras saam abafadas, quase inaudveis, pois ele no parava de beij-la, seu queixo, sua boca. Ele continuava 
a murmurar, mas ela no o ouvia. Tudo o que sabia, era que se no a beijasse realmente dentro dos prximos segundos, ela no suportaria mais o desejo... Segurou 
a cabea dele, envolvendo os dedos nos cabelos e beijou-lhe a boca. Seus lbios eram quentes e tinham ainda o gosto do conhaque que tomara aps o jantar. Tocou-os 
com a lngua, saboreando.
   - Voc tem gosto de...
   Ele interrompeu-a. Beijou-a com sofreguido, forando-a a abrir os lbios, introduzindo a lngua em sua boca. Shelley gemeu de prazer.
   Agarrou seu ombros, enterrando as unhas em sua pele. Nunca a beijara assim antes, com esse desespero, essa necessidade. Antes parecia to controlado... at Sofia 
aparecer durante o jantar. Tentou afastar aquele pensamento.
   Sentia as mos dele em seu corpo, nos seios... Percebia-lhe o calor atravs da seda do vestido, a paixo crescente. Instintivamente arqueou o corpo, encaixando-o 
no dele.
   Os lbios quentes e ansiosos contra os seus exigiam-lhe uma resposta. As mos que percorriam seu corpo prometiam prazeres que ela jamais sonhara.
   A intimidade desse contato queimava-a. Seu corpo movia-se contra o dele ao sentir a sua excitao. Seus dedos tentavam abrir os botes da camisa e sentia que 
estava perdendo o controle. Ele passava as mos pelas suas costas e estava tremendo. Elas desciam pelo seu corpo e agora seguravam seus quadris, pressionando-a contra 
ele.
   Shelley ouviu-se gemer quando ele afastou os lbios para beijar-lhe o pescoo. Sentia o calor que emanava do corpo masculino atravs da camisa.
   - Eu no devia estar fazendo isso... - Percebia raiva em sua voz e sentiu que ele fazia um enorme esforo para controlar-se.
   Mas no queria que ele se controlasse. Queria-o assim, excitado e viril, tocando-a com um desejo ardente que despertava nela sensaes primitivas. Queria tirar 
sua roupa e a dele. Tocar-lhe a pele, e sentir cada parte do corpo msculo.
   - Shelley, voc tem que me ajudar. Por Deus, se eu no parar agora, vou quebrar todos os juramentos que fiz a mim mesmo. O que  que voc tem que me deixa assim? 
Que me obriga a fazer qualquer coisa para lev-la para a cama? Se eu fizer amor com voc, ter de casar-se comigo. Eu poderia engravid-la... - Olhou-a cheio de 
paixo e murmurou com a voz embargada. - Voc tem idia da tentao que  para mim t-la aqui, esta noite?
   Aquelas palavras, a ansiedade quase incontrolvel que sentia em Jaime, ao invs de amedront-la, pareciam somente aumentar a sua prpria excitao. O bom senso 
dizia-lhe que era hora dele partir, e o que ele dissera era verdade. Se ficasse... Se fizesse amor com ele agora, ficaria comprometida.
   - Se eu ficar agora, nunca mais me separarei de voc. Sabe disso, no ? - murmurou, diante do seu silncio. - Meu Deus, Shelley, diga alguma coisa - implorou. 
- Pea-me para parar. Ajude-me!
   Sentiu que ele tremia e tomou-lhe o rosto entre as mos.
   - No quero que voc pare - disse cheia de emoo. - Quero que fique... quero fazer amor com voc, Jaime.
   Depois de pronunciar as palavras, era tarde para recuar. Ficou espantada diante da prpria audcia. Por um momento, ambos permaneceram imveis, como que presos 
quele momento mgico. Depois, Jaime moveu-se, pegou-lhe as mos e colocou uma delas sobre o seu corao. Ele batia descompassado.
   - Voc tem exatamente dez segundos para mudar de idia - disse com a voz embargada pela emoo.
   Quando ele inclinou-se para beij-la, Shelley sabia que no iria mudar de idia...


CAPITULO VII
   
   Jaime beijou-a com suavidade. O vestido que usava tinha um zper nas costas e ela sentiu um arrepio ao perceber que estava sendo aberto. No demorou muito para 
que o vestido fosse ao cho. Ele levantou-a nos braos, carregando-a at a cama. Enquanto isso, no parou de beij-la. Sentia o corpo tenso e ansiava pelo momento 
de consumar aquela unio.
   Ficou deitada, olhando em silncio enquanto ele se despia. Seus olhos seguiam as linhas do corpo de Jaime. Ele era magro, mas musculoso e muito, muito msculo. 
Parecia estranho o fato de ele ser o primeiro homem que via completamente nu e o primeiro com quem tinha aquela intimidade.
   Muito srio, Jaime sentou-se na beira da cama e perguntou:
   - Tem certeza de que quer mesmo?
   - Por qu? Voc mudou de idia? No me quer mais? 
   Ela viu que ele ria ao inclinar-se para ela.
   - Parece que no a quero mais?
   Ficou contente por ele no perceber-lhe o rubor ao tom-la nos braos.
   Quando a tocou, ela no conseguiu mais pensar em nada, alm do desejo que sentia por ele, e suspeitava que ele sabia disso. No tinha defesa contra as prprias 
reaes, mas sentia que, enquanto suas mos e bocas a acariciavam, parecia controlar-se. Por alguma razo isso a perturbava.
   Tremeu ao sentir que Jaime lhe tirava o suti, tomando-lhe os seios nas mos e acariciando-os.
   Ao inclinar-se sobre ela, sua cabea estava velada pela sombra, mas a luz suave vinda da janela revelava os contornos de seu corpo em todos os detalhes. Shelley 
estremeceu. Sua pele parecia frgil e plida em contraste com a dele, mais escura.
   Ele a acariciava, deixando-a muito consciente das suas mos.
   A pele era ligeiramente spera devido ao seu trabalho nos vinhedos. As unhas e dedos eram bonitos e bem-feitos. Eram mos fortes e ternas, que sabiam toc-la, 
excitando-a ainda mais. Prendeu a respirao e sentiu um arrepio de prazer enquanto elas acariciavam seus mamilos.
   Ele moveu-se e deitou sobre o seu corpo. Estendeu a mo para toc-lo, e espantou-se ao sentir-lhe o calor da pele. Ele parecia irradiar uma espcie de eletricidade.
   Lentamente, passou as mos pelas costas dele, consciente de que a observava. Suas mos continuavam em seus seios, mas no a acariciavam, como se esperassem por 
algo, um sinal. Ela passou a mo em seu pescoo e sentiu-lhe os msculos tensos.
   - Shelley...
   Ele colocou a boca em seus lbios e movimentou a lngua de maneira ertica, deixando-a louca de prazer.
   Os seios foram de encontro ao peito masculino. E ela apertava-o ainda mais contra si. Sentiu que estava tenso. Os lbios deixaram sua boca e respirava com dificuldade. 
Segurou seu corpo contra o colcho enquanto beijava sua pele febrilmente, seu pescoo...
   Sentia-se estranha, pesada e ao mesmo tempo leve, dominada por uma onda de desejo.
   - Jaime...
   Como se lhe tivesse pedido algo, ele respondeu:
   - Sim! Sim!
   As mos voltaram para os seus seios. Depois substituiu-as pela boca. Ela soltou um gemido de prazer, agarrando-se em seus ombros.
   - Shelley, Shelley... - repetia seu nome sem parar, os lbios quentes contra a sua pele. Ela acariciou-lhe o corpo, tremendo de prazer.
   Ele suspirou. Com voz entrecortada, murmurou:
   - Est se tornando muito difcil para mim lembrar que  a sua primeira vez: no quero machuc-la...
   - A nica maneira de machucar-me  no fazer amor comigo. - No podia acreditar que fosse ela falando assim. - Eu quero voc, Jaime. - Ouviu-o gemer e, por um 
instante, sentiu todo o seu peso sobre ela. Shelley repetiu baixinho o nome dele e acariciou-lhe o corpo com urgncia.
   - Calma, minha bela, iremos devagar... devagar... - Shelley no queria ir devagar, estava ansiosa para senti-lo e recomeou a acarici-lo.
   - Shelley, Shelley, voc est tornando tudo muito difcil... - Parou de falar quando ela tocou sua virilha. De sbito, ele segurou-lhe a mo com fora. Ela o 
encarou. Seus olhos estavam cheios de desejo.
   Quando Jaime voltou a falar, sua voz parecia estranha.
   - Se quer tocar-me, ento faa-o, mas, por Deus, pare de me provocar assim... Como acha que posso controlar-me?
   Ela sentiu seu corao bater forte, quando guiou sua mo mostrando como queria que o acariciasse. Ele tremia sob seu toque e ento afastou-se dela, beijando-a 
e acariciando-a, aumentando o desejo.
   Queria-o muito. Tentava diz-lo com seu corpo, com suas mos, at que no conseguiu mais resistir...
   - Jaime, preciso de voc. Agora...
   Ele tomou o rosto afogueado entre as mos. Beijou seus lbios e um arrepio percorreu-lhe todo o corpo.
   A entrada inesperada da condessa chamando Jaime num tom de voz horrorizado deixou Shelley gelada. Jaime cobriu-a com o lenol antes de cobrir a prpria nudez 
com a colcha, e s ento voltou-se para encarar a me.
   Dos trs, ele parecia o menos embaraado e o mais controlado. A condessa estava plida e Shelley sentia que o seu prprio rosto queimava e devia estar muito vermelha.
   - Pareceu-me ouvir voc chamando, Shelley. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa... eu... - A condessa sentou-se. - Jaime, como pde fazer isso? Shelley 
est morando em minha casa, sob a minha proteo. Se um dos criados...
   - Shelley est querendo voltar para a Inglaterra.
   - Voltar? - A condessa parecia assustada. - Mas voc no pode fazer isso agora. Tem que casar-se o mais depressa possvel. Jaime, se a sua tia Maria souber disso! 
Voc sabe como ela nunca me aprovou.
   Shelley no sabia se deveria rir ou chorar. A situao parecia ridcula e cmica. Os tempos eram outros, quando um homem tinha que se casar com uma mulher ao 
ser descoberto no seu quarto. Mas esquecera o que Jaime lhe dissera sobre os costumes portugueses. Naquele momento mal podia crer nas palavras da condessa a respeito 
de apressar o casamento.
   Teve a impresso de que Jaime parecia divertir-se e gostar da reviravolta dos acontecimentos, embora procurasse defender Shelley de qualquer culpa enquanto tentava 
acalmar a me. No fez, alm disso, nenhuma tentativa para dissuadi-la dos planos para apressar o casamento.
   Somente depois de Jaime prometer ficar somente mais cinco minutos com Shelley,  que ela concordou em sair do quarto.
   Assim que fechou a porta, Shelley olhou para Jaime plida de aflio.
   - No posso casar-me com voc no fim da semana.  impossvel. Voc sabe que eu planejei voltar para a Inglaterra...
   - Temo que isso no ser possvel agora, querida. - Falava com voz suave, mas com determinao. - Voc viu como mame est aflita. Ela sempre se sentiu intimidada 
diante dos parentes do meu pai, e fica apavorada em pensar que possam descobrir alguma coisa. Se voc voltar para a Inglaterra agora, eu poderia ser acusado de seduzi-la 
e depois abandon-la. Em Portugal, a honra de um homem ainda  muito importante. Eu sei que voc queria um tempo, mas, como pode ver, agora  algo que no posso 
lhe dar. Voc no viu esta noite o prazer que eu poderei lhe proporcionar no nosso casamento? Como ns precisamos um do outro?
   Por que estava discutindo? Ela sabia que o amava. No tinha dvidas sobre os seus sentimentos e sim dos dele.
   - Mas voc no "pode" me amar, Jaime...
   - No existem mais dvidas, nem discusses. Vamos nos casar e vou passar o resto da minha vida provando-lhe que tomou a deciso certa.
   De repente no queria mais discutir. Para qu? Era o que ela mais desejava. Estava na hora de esquecer o passado, e com ele todas as inseguranas que a av lhe 
incutira.
   - Jaime, est se casando comigo para satisfazer a vontade do meu pai? Sua me...
   -  verdade que o seu pai esperava que um dia nos tornssemos amigos, mas embora eu o amasse muito, no poderia casar-me com sua filha somente para realizar-lhe 
o sonho. Voc j deveria me conhecer melhor.
   Ela concordou e deixou que a beijasse antes de sair, mas o problema era que no o conhecia. Amava-o, isto ela sabia, mas...
   Era tolice continuar com as mesmas dvidas. Agora estava comprometida e no podia mais recuar. Se no se casasse com Jaime, iria magoar muito a condessa.
   Corou ao lembrar-se da sua entrada, surpreendendo-os na cama. O pior era que ela j lhe havia dito que no admitia intimidades sob o seu teto. Mesmo assim, sua 
tristeza e revolta eram dirigidas mais a Jaime do que a ela.
   Antes de adormecer, seu ltimo pensamento foi para Sofia. Jaime era um homem experiente. Ser que realmente preferia fazer amor com ela se podia escolher Sofia? 
E era evidente que a jovem ainda o queria. Tornara isso bem claro. Haveria sempre mulheres desejando-o. Ser que teria foras para enfrentar as Sofias que aparecessem? 
Jaime no havia de querer uma esposa ciumenta. Uma esposa... ela seria a esposa de Jaime. Adormeceu com um sorriso nos lbios.
   - Naturalmente, teremos muitas coisas para fazer. Felizmente a maior parte da famlia j a conhece, e sabe das intenes de Jaime. Assim sendo, a notcia do casamento 
no ser uma surpresa to grande. Se fizerem perguntas, direi que j estavam noivos h muito tempo. Que voc e Jaime se conheceram na Inglaterra.
   A maneira animada com a qual a condessa fazia planos para o casamento deixava-a surpresa.
   Esperava que houvesse um certo constrangimento ao encarar a condessa aps o que acontecera na noite anterior, mas ao encontr-la sozinha no caf da manh, a sua 
futura sogra foi direto ao assunto e disse que no mencionaria mais o que acontecera, pois j conversara em particular com Jaime.
   - Embora j seja um homem adulto, ele ainda  meu filho e existem certas regras de comportamento. Mesmo assim, devo fazer concesses para um homem muito apaixonado. 
Principalmente um que temia perder a mulher amada...
   - Ele no estava me perdendo. Eu estava somente querendo voltar por dois meses. Tudo estava acontecendo to depressa que achei que ns precisvamos de um tempo 
para pensar.
   - Ora... isso  o seu sangue ingls - disse a condessa. - Faz com que seja cautelosa demais. Quando conheci o seu pai, eu soube no mesmo dia que o amava. Voc 
no pode voltar para a Inglaterra agora. Est fora de questo.
   No havia motivo para fazer objees. No agora, que j aceitara a realidade do casamento. No era suficientemente forte para resistir aos apelos do prprio corao, 
aliados aos argumentos de Jaime e da condessa.
   Com uma velocidade que deixava Shelley assustada, os preparativos estavam em andamento. O fato de a famlia estar toda reunida em Lisboa facilitava as coisas. 
Foram contratados mais empregados para a recepo e como ela e Jaime eram da mesma religio, no haveria problemas quanto  cerimnia.
   Durante dois dias, a nica vez que vira Jaime fora durante alguns momentos antes de ser examinada por mais parentes e sair para exaustivas compras, nas quais 
a condessa parecia querer lhe comprar roupas para dez anos. Em Portugal, a noiva tinha que levar um enxoval como antigamente.
   No terceiro dia, a condessa anunciou que iam sair para comprar o vestido de noiva. Vendo o ar decidido da futura sogra, no tivera coragem de dizer que queria 
algo bem simples.
   Passaram a manh toda nas lojas at encontrarem um vestido que agradasse  condessa e, ao ver o seu reflexo no espelho, Shelley ficou surpresa.
   Ela sofrera uma transformao. O patinho feio transformara-se em cisne. O vestido marcava a cintura, o corpinho era justo e a saia armada com anguas. Nada poderia 
favorecer mais a sua pele clara do que a delicadeza da seda e da renda. Pequenas prolas estavam costuradas em toda a saia e brilhavam como lgrimas. Era um vestido 
de Cinderela, coisa de conto de fadas. E apesar de dizer que desejava algo simples, estava encantada com o vestido.
    tarde, saram para comprar lingerie feita pelas freiras do convento local. Uma extravagncia que Shelley no queria, mas, ao ter uma viso de Jaime admirando-a 
nessas roupas, acabou concordando.
   J no podia mais esperar at sbado. O dia em que se tornaria a esposa dele. Ela o amava e, de repente, no queria mais pensar em nada.
   Durante o resto da semana, viu Jaime ainda menos e naquela sexta-feira  noite, quando ele viria para jantar, a condessa preparara uma reunio. Esperando uma 
meia dzia de convidados, Shelley ficou surpresa ao ver a sala de jantar com mais ou menos cinqenta pessoas. Esquecera que as famlias portuguesas eram muito numerosas.
   Em considerao  noiva, os convidados no ficaram alm das onze e, quando Shelley pensou que finalmente poderia ficar um pouco a ss com Jaime, a condessa insistiu 
para que fosse dormir.
   - Amanh vai ser um longo dia - disse a condessa e Shelley sabia que tinha razo. Aps a cerimnia religiosa haveria uma recepo em casa e,  tarde, ela e Jaime 
viajariam para a quinta, onde passariam um ms de lua-de-mel. Jaime lhe perguntara se gostaria de viajar para o exterior, mas Shelley no quisera. Sabia que era 
poca de muito trabalho nos vinhedos e, alm disso, queria conhecer o marido no seu prprio ambiente.
   Pela manh, foi acordada por uma criada excitadssima trazendo o caf. A condessa e Carlota vieram ao quarto antes que terminasse o desjejum. Carlota para tagarelar 
e a condessa para avis-la de que o cabeleireiro j chegara.
   Depois o dia transformou-se numa confuso sem fim, terminando na calma da igreja, quando ela e Jaime trocaram juramentos. A cerimnia foi conduzida em ingls 
e ao ouvir a beleza das palavras sentiu que chorava.
   Estava feito. Era a esposa de Jaime. Ele era seu marido.
   A recepo fora animada e barulhenta. Os sales cheios de crianas e adultos. Os casamentos portugueses eram obviamente um assunto de famlia, e Shelley fora 
beijada e abraada tantas vezes que estava tonta.
   Seu vestido fora muito admirado e, embora Jaime no tivesse dito nada sobre ele, a maneira como a olhara no altar havia sido suficiente.
   Tirou-o com uma sensao de tristeza e j estava com um conjunto de seda verde para a viagem, quando Jaime entrou.
   Sentiu um arrepio. De agora em diante aquele homem era seu marido.
   - Pea para colocarem o vestido de noiva numa mala que eu quero lev-lo conosco para a quinta - disse ele, dando-lhe um beijo rpido. Olhou-o sem entender. - 
Eu quero tir-lo hoje  noite.  um direito do noivo.
   Ficou to emocionada e excitada com o que ele dissera que teria pedido a ele para fazer amor com ela ali mesmo, se Carlota no tivesse entrado naquele instante 
para dizer que os convidados estavam  sua espera para a despedida.
   J eram quase trs horas quando conseguiram sair. No tinham amarrado latas no carro nem escrito slogans, mas, assim mesmo, sentada ao lado dele na intimidade 
do carro, Shelley estava consciente de ser ento uma mulher casada.
   Jaime esperou at que estivessem longe do trfego de Lisboa para beij-la. Quando parou o carro no acostamento, Shelley pensou que houvesse algum problema, mas, 
ao ver a expresso nos olhos dele, seu corao disparou.
   - Foi uma longa semana - murmurou Jaime. - No sei como eu estaria se tivesse me obrigado a esperar mais tempo. - Parou de falar e fitou o colo de Shelley.
   Ele j lhe dera um presente de casamento. Um lindo colar de prolas que lhe ornamentava o pescoo desde a cerimnia.
   - Gostou do presente?
   - Muito - disse encarando-o, e acrescentou: - Mas no tanto como gosto de voc.
   - Vou me lembrar disso. Ter de mostrar mais tarde o quanto gosta de mim - disse rindo. - No sei o que eu teria feito se tivesse voltado para a Inglaterra. Provavelmente 
eu a teria raptado.
   - Se tivesse me levado para o seu apartamento, sua me no teria...
   - Eu queria voc como minha esposa, Shelley, no como minha amante. Se eu a levasse para o meu apartamento, algum poderia nos ver. Certo ou errado, alguns membros 
da famlia tm conceitos de moral muito rgidos. No queria nenhum comentrio sobre voc.
   - Quer dizer que se eu fosse sua amante, sua famlia no teria me aprovado?
   Jaime sentiu ressentimento em sua voz.
   - Estamos em Portugal e no na Inglaterra, Shelley. O sangue mouro ainda corre em nossas veias. Temos um longo caminho  nossa frente. Por que no tenta dormir?
   - Que espcie de noiva  essa que adormece aps quatro horas de casamento? - ela brincou.
   - Mas vai ter que ficar acordada depois - disse Jaime e viu-a corar. - Gosto de v-la enrubescer assim. Gosto de saber que nunca houve ningum antes de mim. Hoje 
 noite quero lhe mostrar o quanto eu gosto disso.


CAPITULO VIII
   
   Shelley acordou somente quando chegaram  quinta, e os empregados vieram ajudar a tirar as malas do carro.
   Quando entrou, subiu a escada em direo ao seu quarto e Jaime teve de lembr-la de que passariam a usar o quarto que fora dos seus pais. A condessa no o usara 
com o pai de Shelley e, embora a decorao fosse um pouco antiquada e escura, o dormitrio com uma sala ao lado era muito espaoso e tinha uma linda vista para os 
vinhedos.
   - O que est olhando? - perguntou Jaime ao chegar no terrao, aps ter fechado a porta do quarto. - Est muito escuro para ver alguma coisa.
   - Estou vendo o contorno dos morros. Estamos sobre o ptio?
   - No, esta sute tem um ptio privado. No terrao tem uma escada que leva diretamente at ele.
   Examinou a moblia com olhar crtico.
   - Provavelmente voc vai querer mudar a decorao. Ter que ir a Lisboa para isso. Se tivssemos tido mais tempo...
   - Teramos tido mais tempo se voc tivesse me levado para o seu apartamento ao invs de...
   - O que voc quer que eu diga? Que eu queria que a minha me entrasse no quarto para exigir que eu me casasse com voc?
   Shelley ficou tensa. Estava comeando a ficar nervosa, consciente de que estavam casados e que agora finalmente consumariam a relao mais ntima que pode existir 
entre duas pessoas.
   - E voc queria que ela entrasse?
   - O que acha? - Ele a observava e subitamente seus temores voltaram, com a dvida de que ele realmente pudesse am-la. Afinal, o que ela tinha para lhe oferecer?
   - Se queria, foi uma maneira um tanto drstica para impedir a minha volta  Inglaterra.
   - Mas deu resultado, no deu? - Shelley ficou confusa. O que comeara como uma brincadeira, estava agora tomando outro rumo.
   - Voc no faria uma coisa dessas - disse, no sabendo mais se estava afirmando ou perguntando.
   - Voc ficaria surpresa do que sou capaz de fazer para conseguir o que quero. E eu queria muito casar-me com voc.
   Nesse momento bateram  porta. Algum falava em portugus e, quando ele voltou, parecia preocupado.
   - Vou ter de sair, mas no demoro. No devo ficar ausente mais do que uma hora. Lusa lhe trar alguma coisa para comer.
   - Mas, Jaime... - Olhou para ele com tristeza. Era o dia do seu casamento, a noite de npcias e ele estava indo embora!
   - Eu sei, mas  algo que tenho de fazer, infelizmente.  um assunto de negcios que preciso resolver hoje. No demoro. Nem vai dar tempo de sentir a minha falta.
   Shelley pensou que viesse lhe dar um beijo, mas ele no o fez e ela ficou desapontada. Ele olhou-a e, como se soubesse o que pensava, disse:
   - No posso. Se eu a tomar em meus braos agora, no poderei mais sair.
   Queria perdir-lhe para que no fosse. Para que esquecesse o compromisso, mas tinha que enfrentar a realidade. Se no fosse importante, ele no iria. Tentou sorrir.
   - Estarei esperando por voc.
   Jaime sara h mais de quarenta minutos quando Lusa veio lhe avisar que tinha uma pessoa querendo v-la.
   Desceu at a sala de estar e surpreendeu-se ao ver Sofia olhando para ela com hostilidade.
   - Como vai a noivinha?
   - Jaime no est aqui - disse Shelley secamente.
   - Eu sei. Ele foi encontrar-se com o meu pai. Ns temos uma vila perto daqui, junto a um empreendimento que estamos desenvolvendo ao longo da costa. Quando for 
ampliado e incluir as terras da vila, eu me tornarei sua vizinha, j que vou administrar o empreendimento para o meu pai. Vai ser muito conveniente para Jaime e 
para mim. Tem sido um tanto complicado visit-lo em seu apartamento de Lisboa, mas quando estivermos morando aqui... - Olhou para o rosto de Shelley e riu. - Oh, 
minha querida! Ele no lhe disse porque se casou com voc? Mas certamente j deve ter adivinhado.
   Shelley ficou gelada. Sentia que estava vivendo um pesadelo.
   - Voc quer dizer... por causa do meu pai...
   - Por causa da vila do seu pai - acrescentou Sofia. - Jaime tinha de casar-se com voc para entrar na posse da vila e das terras. Essas terras so de vital importncia 
para o empreendimento que meu pai e ele planejaram. Naturalmente continuaremos a ser amantes. - Encarou Shelley para ver como estava recebendo a notcia e algo em 
seu rosto plido deve t-la agradado, pois continuou: -  claro que no imaginou que ele a amasse. Um homem como Jaime pode ter qualquer mulher que desejar.
   - Acho que no estou entendendo... - No podia deixar que Sofia a humilhasse tanto.
   - No? - Ela sentou-se. - Ento  melhor que eu explique tudo. Jaime no deve voltar to cedo e terei tempo de lhe contar toda a histria. Ele pediu-me para que 
lhe contasse porque se casou com voc. Eu o convenci de que seria melhor voc saber logo de toda a verdade. Afinal, nenhuma mulher gosta de saber que se atirou nos 
braos de um homem que no a deseja. E  isso que teria acontecido se o casamento tivesse se consumado. No duvido que ele teria cumprido essa obrigao. Pois sem 
a consumao, o casamento no seria legal. E Jaime tem muita experincia e poderia enganar com facilidade uma tola como voc.  uma pena, mas a nica coisa que ele 
deseja de voc  a vila.
   - Ele poderia ter ficado com ela sem precisar casar-se comigo. Ele sabia disso, mas acho que voc no sabia. Eu queria devolv-la  condessa.
   - Devolver a vila  me dele no era o que Jaime desejava que voc fizesse. A condessa  contra os planos de Jaime e do meu pai, assim como o seu pai era. Ambos 
eram tolos. Jaime ganhar uma fortuna com esse empreendimento junto com o meu pai.
   Por que continuava ouvindo aquilo? Por que no saa da sala? Era o orgulho que no a deixava fugir, pensou Shelley. Sofia continuou a falar calmamente.
   - Meu pai planeja expandir o atual projeto incluindo as terras da vila. Pretende construir um complexo esportivo para os hspedes do hotel. Chals particulares, 
quadras de tnis, etc. Quando ficar pronto, esta parte do Algarve vai ser a meca dos turistas com dinheiro para gastar.
   Shelley ficou chocada coma imagem que ela pintava. Gostava da costa como era agora, intacta. Era impossvel que Jaime quisesse esse tipo de empreendimento praticamente 
na porta da quinta. Mas, como se tivesse lido seu pensamento, Sofia continuou:
   - Naturalmente, Jaime pretende vender a quinta. Com certeza comprar uma casa para voc e a famlia, enquanto ele e eu... - e riu, ao ver a expresso de Shelley. 
- Voc pensa que ns deixaramos esse casamento interferir na nossa relao? Jaime precisa de mim na vida dele, assim como precisa de voc.
   - Mas ele no se casou com voc.
   - Eu no quero me casar com ele, nem com ningum. Prefiro minha liberdade. Mas isso no quer dizer que eu no queira t-lo como amante. Assim como ele tambm 
quer, apesar do que ele possa ter contado a voc.
   - Jaime sabe que voc veio falar comigo?
   -  claro. Neste instante ele e meu pai esto festejando o sucesso do plano.
   Se era somente a vila que ele queria, por que passar por tudo isso? Por que simplesmente no... No a tinha pedido? Mas ele sabia que, como a sua me, ela no 
teria permitido que derrubassem a vila e ocupassem as terras. Mas ele parecia to sincero ao falar sobre o seu pai, sobre seu amor e respeito por ele.
   - Mas se Jaime queria tanto essa terra, por que no tentou convencer a condessa? - perguntou, no querendo acreditar que Sofia dizia a verdade. Embora suspeitasse 
que ele tinha um motivo ulterior para fingir amor por ela, agora que as suas suspeitas se confirmavam, lutava para afast-las.
   - A condessa nunca daria seu consentimento. Ela est obcecada pela idia de preservar a vila por ter sido a casa do seu marido. Jaime esperava que o padrasto 
a deixasse para ele no testamento e foi com essa esperana que ele entrou na sociedade com meu pai. Veja, eu trouxe o contrato para mostrar a voc.
   Ela abriu a bolsa e retirou vrias folhas datilografadas, entregando-as a Shelley. Naturalmente, era tudo escrito em portugus, mas no havia dvida quanto  
assinatura de Jaime e do pai de Sofia no documento.
   - Agora acredita em mim?
   Havia triunfo nos olhos escuros de Sofia e Shelley lutava para controlar-se. Sentia nuseas e vontade de fugir. Aquilo s podia ser um pesadelo...
   Mas no devia estar surpresa. Desde o comeo duvidara dos sentimentos de Jaime, mas nunca imaginara um motivo daqueles. Suspeitara que fosse por causa de seu 
pai, mas no isso. Nunca teria imaginado essa desonestidade, se Sofia ho lhe tivesse revelado a verdade.
   Sofia observava-a. Havia tenso no ar e ela voltou  realidade. Jaime e Sofia ainda eram amantes. Ele fora esperto ao contar-lhe isso, desviando a sua ateno. 
Fizera com que acreditasse que o caso terminara e que fora algo que nem o tocara.
   E Sofia lhe garantia que o caso continuava. Era por isso que Jaime no lhe dissera para onde ia e partira com tanta pressa. Sofia estava certa numa coisa. No 
podia competir com a sua experincia. Nem tentaria. Jaime casara-se com ela, mas casamentos podiam ser anulados, especialmente quando no consumados. Ela se recusaria 
a dormir com ele. Provavelmente ficaria at aliviado, se no fosse pelo fato de no ter direitos legais sobre a vila e suas terras se o casamento no se consumasse. 
Ela no poderia dormir com ele... no poderia toc-lo ou permitir que ele a tocasse, pois j conhecia toda a verdade. Por que no dera ouvidos aos seus pressentimentos? 
Ento fora por isso que no queria que ela voltasse para a Inglaterra.
   Um outro pensamento assaltou-a. Teria deixado que partisse? Ou sabia que a me iria interromp-los?
   Sofia j apanhara os papis e sua bolsa e dirigia-se para a porta. Antes que sasse, Shelley disse com frieza:
   - Quer que eu diga a Jaime que voc esteve aqui fazendo o seu servio sujo?
   - Voc  quem sabe. Se estivesse no seu lugar, no esperaria a sua volta. Tomaria o primeiro avio para a Inglaterra. Ou no tem nenhum orgulho?
   Tinha orgulho sim, at demais para sair correndo. Mas antes diria a Jaime que no seria sua mulher, e assim que pudesse, falaria com o advogado a respeito da 
anulao do casamento. De uma coisa estava certa: no deixaria Jaime tirar-lhe a vila. Seu pai no queria que ela fosse vendida, nem tampouco a condessa, e talvez 
fosse por isso que lhe fora deixada no testamento. Ela no iria trair a confiana que o pai depositara nela.
   Meia hora aps a sada de Sofia, Jaime estava de volta. Parecia preocupado ao entrar no living.
   - Maria disse-me que Sofia esteve aqui. O que ela queria?
   - Ora, veio somente para cumprimentar-nos pelo casamento. - Se fosse preciso, ela tambm sabia mentir. - Contou-me que seu pai tinha negcios na regio.
   - Ele  o proprietrio do hotel que est sendo construdo perto da praia. Alis, foi por causa dele que tive de sair.
   - Oh! - Era melhor atriz do que imaginara. Jaime no percebera nada. - Os negcios esto em ordem?
   Olhou para ela um pouco surpreso.
   - Acho que sim. Mas Shelley, estamos em lua-de-mel e no pretendo falar de negcios com voc.
   - No,  claro que no. - sorriu para ele e foi at a porta. Antes de sair, perguntou-lhe: - Jaime, voc teria deixado que eu partisse para Londres se a sua me 
no nos tivesse interrompido?
   - Deix-la voltar? Voc sabe que no.
   Sim, ela sabia e o por qu. Virou-se para que no visse a agonia em seu olhar. S olhou novamente para ele depois de conseguir controlar-se.
   - Jaime, eu no posso dormir com voc hoje... estou muito confusa... Eu preciso de tempo.
   Tempo para anular o casamento. Tempo para esconder-se da humilhao que lhe causara. Era bvio, pela sua expresso, que ele no tinha idia do que Sofia lhe dissera. 
Shelley no estava surpresa. Apesar de tudo, sabia que Jaime no era o tipo de homem que manda outra pessoa falar em seu lugar. Sem dvida planejara mant-la na 
ignorncia o maior tempo possvel, mas Sofia decidira tomar o assunto em suas mos. A mulher portuguesa devia ser uma amante muito ciumenta e no poderia aceitar 
outra mulher, mesmo que fosse ela. Sabia que Sofia desejava que partisse, mas ela no iria at que soubesse exatamente qual a sua posio legal em relao  vila. 
Teria de saber se sob a lei portuguesa as mulheres casadas conservavam suas propriedades. Mesmo assim, diante do fato de o casamento no ter se consumado, a propriedade 
deveria continuar sendo sua. Com o que sabia agora, no tinha dvidas de que Jaime seria capaz de tudo para assegurar-se de que a vila ficaria para ele. Afinal, 
essa fora a razo para toda aquela farsa.
   Mas naquele momento, Jaime olhava para ela no querendo acreditar no que ouvia.
   - Mas que diabo est acontecendo? - perguntou zangado, aproximando-se dela, porm sem toc-la. - Shelley, o que aconteceu com voc? Quando sa daqui parecia no 
poder esperar o momento de ficarmos juntos e agora est me dizendo que...
   - Que no vou fazer amor com voc - completou. - Sinto muito, Jaime, mas no posso. Eu lhe pedi para no me apressar.
   - Shelley! - Parecia no poder acreditar. - Shelley, por favor... posso entender os seus receios, mas eu lhe prometo...
   - Jaime, no adianta! - Estava cada vez mais nervosa. Tinha que acabar logo com isso, antes que contasse toda a verdade, e no era isso o que desejava. Para usar 
de honestidade, no confiava na sua capacidade de resistir, se ele tentasse usar os seus encantos. Apesar de tudo o que Sofia lhe contara, ela ainda o desejava. 
Ainda o amava. Tinha de mant-lo a distncia.
   Percebendo o seu estado de nervosismo, Jaime afastou-se um pouco e procurou acalm-la.
   - Est bem, hoje dormirei no meu antigo quarto, mas temos que conversar sobre isso, Shelley. Sinto que h algo errado. Algo alm do que est me dizendo. Sofia 
tem alguma coisa a ver com isso? - perguntou zangado.
   - Voc me disse que o seu caso com ela estava terminado.
   - Sim - falou com impacincia. - Disse alguma coisa que a perturbou? Ela despertou novamente a sua insegurana,  isso?
   Tinha certeza de que ele estava fingindo essa preocupao com ela.
   - Ela a magoou, Shelley?
   Ali estava a sua chance de saber a verdade.
   - Como ela poderia magoar-me? - Rezava para que ele dissesse a verdade.
   - No sei. Conte-me o que ela lhe disse.
   - No quero falar sobre Sofia. Eu quero dormir.
   - Sozinha - ele acrescentou sarcstico. - Muito bem. No vou for-la a nada, Shelley, e tambm no tenho pacincia para convenc-la a fazer amor comigo agora. 
Mas o que realmente est acontecendo?  nervosismo de noiva ou descobriu que no me ama?
   Era a sada perfeita, e aproveitou a chance, sem perceber-lhe a expresso do rosto.
   - No estou certa dos meus sentimentos, Jaime. Voc apressou este casamento, e sabe que eu queria esperar...
   - Ah, ento  tudo minha culpa? Est bem. Durma sozinha, se  isso o que quer. Mas no pode mudar o fato de que  minha esposa, Shelley. Nada poder mudar isso...
   Muita coisa poderia mudar sim, bastava apenas que o casamento no se consumasse, mas no pretendia lembr-lo disso agora. No. Esperaria at ter certeza dos seus 
direitos legais, antes de dizer-lhe isso.
   A sorte estava do seu lado. Um temporal que cara durante a noite causara tantos estragos s videiras, que Jaime fora obrigado a sair bem cedo, antes que ela 
acordasse. Ficara fora quase o dia todo e, se os criados estranharam o fato dos recm-casados estarem em quartos separados, no deram demonstrao disso.
   Pensara que Jaime fosse tentar persuadi-la a dormir com ele, mas no fizera nenhuma tentativa, tratando-a com uma frieza que fez com que pensasse se no estaria 
aliviado por ter sido poupado de ter que fazer amor com uma esposa inexperiente e indesejvel. Decerto estaria contando os dias at poder encontrar-se com Sofia 
novamente, pensou com amargura. Quando quatro dias aps a sua chegada de Lisboa ele lhe disse que devia voltar para tratar de negcios urgentes, ela sabia muito 
bem do que se tratava.
   - Est bem - respondeu. - Mas gostaria de ir para Lisboa com voc. Eu poderia passar o dia com sua me. - E tambm teria a oportunidade de falar com o advogado. 
Estava comeando a ficar nervosa. Era uma tenso contnua viver assim. E o pior era saber que o amava desesperadamente e desejava-o cada vez mais.
   A sua primeira reao ao ouvir Sofia contar porque Jaime se casara com ela fora de abandon-lo imediatamente. Mas sabia que era isso que ela esperava e, mais 
do que a agonia da traio, havia a sua determinao de impedir Jaime de vender as terras que foram de seu pai.
   A sua recusa de dormir com ele nascera do seu sentimento de revolta, tanto quanto o seu desejo de castig-lo. Quatro dias aps o seu casamento, ainda no era 
sua esposa. No sabia o que esperava dele. Talvez que implorasse, que a persuadisse, que se recusasse a aceitar a sua rejeio. Certamente no antecipara a raiva 
que via em seus olhos. Mas era ela quem tinha o direito de sentir raiva, no ele. Certamente deveria saber o que Sofia lhe contara, entretanto no fizera nenhuma 
tentativa para falar sobre isso. No sabia exatamente o que esperava. Que ele negasse tudo?
   A falta de interesse por ela no era uma prova da verdade? Sofia estava certa. Ele havia sido muito convincente ao representar o homem apaixonado. Ele a convencera 
de que, ao menos sexualmente, a desejava. Ou ser que imaginava que era Sofia quem tinha nos braos cada vez que estavam juntos? No poderia mais continuar assim. 
Se no resolvesse logo isso, poderia fraquejar e seria capaz de humilhar-se ainda mais.
   Na quinta-feira aps o casamento partiram para Lisboa logo pela manh. A viagem transcorreu em silncio.
   Ele deixou-a diante da casa da condessa, dizendo-lhe que no ia entrar.
   - S de nos olhar seria o suficiente para minha me suspeitar que as coisas no vo bem entre ns. Ela j tem preocupaes demais.
   Ele a olhava como se a culpasse pela separao. Como se atrevia a bancar a parte injuriada, quando devia saber muito bem que ela estava a par da verdade? Assim 
que soltou o cinto de segurana, ele inclinou-se para destravar a sua porta. Ela imediatamente encolheu-se e viu a fria em seu rosto.
   -  Est bem, eu no vou violent-la aqui na porta da casa da minha me - disse ele irado. - Ou  isso que voc quer, Shelley. Ser obrigada a...
   Ela saiu do carro antes que ele acabasse de falar, assustada com o clima tenso dentro do carro, provocado tanto por ela como por ele. Quase desejava que ele a 
tivesse tocado, ao menos ela poderia ter sentido alvio em agredi-lo.
   A condessa estava a sua espera. Jaime telefonara na noite anterior avisando-a da sua chegada. Recebeu Shelley com um abrao e depois afastou-se para olh-la.
   - Shelley, minha querida... o que ? Voc e Jaime brigaram? - perguntou ao ver seu rosto plido.
   No poderia mais ocultar a verdade, nem suportar sozinha esse sofrimento. Sentia que estava prestes a chorar.
   - Pior que isso. Descobri porque Jaime casou-se comigo. 
   Aos poucos a condessa ficou sabendo toda a histria. Quando Shelley terminou, sua madrasta estava to plida quanto ela.
   - No - disse ela, afinal. - Eu sabia que havia um relacionamento entre Jaime e Sofia... No se pode esperar que um homem da idade dele viva como um monge. Mas 
isso que Sofia lhe disse, que Jaime pretende vender a vila e as terras para o pai dela, no  verdade. Ele bem que gostaria. Sei que procurou seu pai uma vez. Mas 
Jaime sabe muito bem o que sentamos a respeito daquele empreendimento na costa do Algarve. Ns nunca venderamos aquelas terras ao pai de Sofia. Eu tenho certeza 
de que Jaime tambm no faria isso. No, Shelley, Sofia s pode ter mentido para voc.
   - Mas, porqu? Com que finalidade?
   - Talvez porque tenha cime - sugeriu a condessa. - Ela  uma jovem insensvel e egosta e no desejaria v-la casada com Jaime. Sei que ela o perseguiu durante 
muito tempo.
   - De acordo com o que ela me disse, eles ainda so amantes.
   - Voc contou ao meu filho tudo o que ela lhe disse?
   - No, mas ele deve imaginar que eu sei. Ela... Sofia me procurou enquanto ele estava fora. Jaime teve de sair na noite em que chegamos  quinta. Disse que ele 
estava tratando de negcios com o pai dela, para dizer-lhe que o nosso casamento significava que podiam continuar com os planos. Contou tambm que Jaime no gostava 
de mim. Quando ele voltou, no lhe disse nada, pois fiquei com medo que ele pudesse me convencer que ela estava mentindo. E se tivesse me convencido naquela noite, 
eu no saberia; realmente a verdade. Agora sei que deve ser verdade. Ele no tentou... fazer nada para consumar o nosso casamento.
   A condessa parecia desolada. No sabia se pelas revelaes sobre o filho ou se pelo que Shelley fizera.
   - Mas voc deve ter-lhe dado um motivo... uma explicao para no...
   - Para no dormir com ele? - perguntou Shelley. - Sim. Eu disse que sentia que o casamento fora muito apressado e que no estava preparada. Agora tenho de ir... 
preciso ver o advogado. Quero saber exatamente a minha situao diante da lei. No sei nada sobre os bens da mulher casada em Portugal, e depois preciso mandar anular 
o casamento. No vou permitir que ele venda as terras do meu pai. No posso deixar que faa isso, no importa...
   - No importa o quanto voc o ama - disse a condessa. - Shelley, eu conheo meu filho. No posso acreditar que tudo o que me contou seja verdade. Tem certeza 
de que no est se deixando ferir desnecessariamente por uma mulher vingativa? Por que no conversa com Jaime sobre isso? Por que...
   - No! No posso. O tempo todo eu sentia que ele no me amava... Eu deveria ter ouvido o meu bom senso e no o meu corao,
   - Oh, Shelley. - A condessa pegou suas mos. - Minha querida, ser que tudo isso  minha culpa? Eu estava to preocupada com as convenes que forcei voc a esse 
casamento. Eu sabia que queria esperar. O que de verdade a assusta? Pensar que Jaime no a ama? Eu lhe asseguro que sim. Ele  meu filho, Shelley, e eu o conheo 
muito bem, e estou comeando a conhecer voc tambm. Desde que vocs se conheceram, parece que est sempre procurando uma desculpa para fugir dele e de voc mesma. 
Por qu? Voc acabou de me dizer que nunca acreditou que ele a amasse. Por que no? Voc  uma mulher bonita, interiormente tambm, e meu filho  suficientemente 
inteligente para ver isso. Ser que a base de todo esse sofrimento no estar na falta de confiana em si mesma? Eu sei que sofreu muito quando criana. Como foi 
tratada pela sua av, mas Jaime no  como a sua av, Shelley. Ele a ama...
   As palavras da condessa estavam muito perto da verdade. Subconscientemente, esperava que nada desse certo, sabia disso agora. De uma certa maneira, agora que 
acontecera, era quase um alvio. No precisaria mais ter esperanas. Sabia que ele era igual aos outros. Que a sua av tinha razo. Ela no era digna de ser amada.
   - Ele no me ama - disse com amargura. -  Sofia que ele ama.
   - Precisa de tempo para pensar - disse a condessa. - Eu sei que quer ver o advogado, mas primeiro vamos dar um passeio de carro, enquanto procura se acalmar.
   A condessa tinha razo. Enquanto a Mercedes guiada pelo motorista passava por ruas calmas e avenidas arborizadas, os seus nervos pareciam acalmar-se.
   Ficou surpresa ao ver que o carro parava diante de um hotel.
   - Vamos entrar e tomar um ch - disse a condessa. - Depois voltaremos para casa para descansar. Mais tarde, se ainda quiser falar com o advogado, telefonarei 
marcando uma entrevista. Mas eu acho que deve falar com Jaime primeiro.
   No queria ser forada a nada, mas agora seguia a condessa e entraram no hall do hotel.
   - Vamos por aqui. - A condessa pegou seu brao e foram para um salo, onde quase todas as mesas estavam ocupadas por mulheres elegantemente vestidas, que tomavam 
ch, enquanto uma jovem tocava piano num dos cantos do salo.
   Provavelmente devia ser o lugar mais fino da cidade, pensou Shelley, observando as jias e os vestidos de griffes famosas. A decorao era um pouco pesada para 
o seu gosto, especialmente para um hotel moderno. Uma garonete sorridente conduziu-as at uma mesa localizada quase em frente  grande porta que dava para o hall. 
Dali Shelley podia ver a rea de recepo, com seu movimento incessante.
   A garonete trouxe o ch, com vrios tipos de sanduches e docinhos que pareciam deliciosos. Enquanto a condessa servia o ch, Shelley tinha a sua ateno voltada 
para o hall.
   De sbito, ficou tensa ao ver Jaime aproximar-se do balco de recepo. Inclinou-se para falar com a recepcionista. Algum ficou  sua frente impedindo a viso 
e, quando se afastou, Shelley sentiu o corao lhe subir  garganta. Sofia estava ao lado de Jaime, segurando seu brao e estendendo a mo para apanhar a chave com 
a recepcionista.
   Shelley sentiu o corao parar dentro do peito. No conseguia tirar os olhos do casal, que caminhava agora em direo aos elevadores.
   A condessa, notando a sua palidez e seu olhar fixo, tocou seu brao e olhou tambm para a mesma direo.
   - O que h, Shelley? - Mas silenciou ao ver seu filho acompanhado de Sofia. - Shelley, deve haver uma explicao para isso - disse nervosa. - Isso no significa 
nada.
   - A moa da recepo lhes deu uma chave - falou Shelley. Levantou-se num salto, empurrando a mesa e derramando o ch.
   As lgrimas a cegavam.
   - Tenho de ir - disse  condessa, com a voz embargada. - Sinto muito, mas no posso ficar. Agora no...
   

CAPITULO IX
   
   Felizmente, Shelley guardara as chaves da vila. Quando chegou  quinta, pagou o txi e, embora os criados estivessem surpresos por v-la de volta, ningum lhe 
fez perguntas quando subiu para arrumar as malas, colocando-as depois no carro.
   O tempo todo temia que Jaime a seguisse. Tinha a impresso de que a qualquer momento poderia chegar para tentar seduzi-la at que ela desistisse de partir. O 
desejo era uma arma poderosa, afinal. Bastaria que ele a tocasse para t-la nas mos.
   Apesar do que Sofia dissera, ainda o amava muito. No podia deixar de pensar no que teria feito se a me de Jaime no os interrompesse naquela noite e tivessem 
feito amor. Estaria se afastando dele com tanta facilidade, se houvesse a possibilidade de estar grvida?
   Ao invs disso, porm, Jaime apenas a excitara de modo a deix-la incapaz de raciocinar e desejara apenas ser possuda por aquele homem maravilhoso e sensual.
   J no interior do carro, esforou-se para atinar no caminho a seguir. A condessa quase a convencera de que havia sido enganada por Sofia, mas, ao v-los juntos 
daquela maneira, com Sofia segurando a chave... No, no restava a menor dvida.
   O que Jaime teria dito a ela depois, ao voltar para a casa da me? Teria mentido, falando sobre um encontro de negcios, ou teria ficado em silncio como nos 
ltimos dias?
   Ainda que no tivesse adivinhado, decerto quela altura conhecia toda a verdade, pois Sofia com certeza a revelara.
   No incio, sentira prazer em fingir que a visita dela fora somente social, mas comeava a se arrepender de no lhe ter atirado os fatos ao rosto. E pensar que 
chegara a ach-lo to correto e honesto!
   No mais conseguindo conter as lgrimas, resolveu parar o carro. Nunca deveria ter vindo a Portugal. Mas, se no o fizesse, nunca saberia a verdade sobre o amor 
do pai por ela. Todavia, tambm no precisaria suportar a agonia de amar um homem que a usara para os prprios interesses.
   Antes de dar a partida, lembrou-se do que a condessa lhe dissera e que afinal tinha uma ponta de razo. Estava procurando uma desculpa para duvidar do amor de 
Jaime, porque inconscientemente tinha medo de confiar nele por inteiro. Contudo, Shelley sabia que fizera bem em no lhe revelar os seus sentimentos.
   Poucos minutos depois, a caminho da vila, parou para comprar suprimentos.
   O seu bom senso lhe dizia que deveria ter ficado em Lisboa, mas diante da reao ao encontrar Jaime com Sofia, a nica coisa que queria fazer era fugir e esconder-se, 
ficar o mais distante possvel daquele pesadelo. A vila a atraa como uma luz na escurido... Ali, na casa que o pai lhe deixara, encontraria refgio.
   E se Jaime viesse atrs dela? Estaria to ansioso para conseguir a vila e as terras que seria capaz de... Seria capaz do qu? For-la a se entregar a ele? No, 
ele no se atreveria. Havia sido tolice sair de Lisboa com tanta pressa, mas estava to abalada que no parara para pensar. Precisaria escrever ao advogado, ao invs 
de conversar com ele pessoalmente. Jaime que o consultasse depois!
   Queria esquec-lo. Se pudesse arranc-lo do corao, da cabea, com certeza j teria feito, mas no podia... Amava-o tanto! Odiava ter de admitir. O que acontecera 
com a sua habilidade de proteger-se contra qualquer espcie de sofrimento? Tudo desaparecera no momento em que o vira pela primeira vez. E embora sentisse dio por 
agir assim, sabia que no conseguiria resistir se ele a tocasse novamente.
   Chegou  vila quando o cu j anunciava o comeo do anoitecer. Os traumas do dia resultaram numa enorme exausto fsica, mas seu crebro permanecia em plena atividade. 
Entrou em todos os quartos e verificou portas e janelas: tudo trancado. Mesmo que Jaime viesse atrs dela, no poderia entrar. Pela primeira vez na vida, Shelley 
desejou tomar um comprimido para dormir.
   Um banho quente e um bom copo de leite teriam de substitu-lo, mas mesmo deitada na gua morna, seu corpo recusava-se a relaxar.
   Cada vez que fechava os olhos, era atormentada pelas lembranas. Via Jaime abraando-a naquela noite, no quarto... Via Sofia com os olhos cheios de malcia e 
maldade... A condessa subitamente mais velha e muito triste... Novamente Jaime e a maneira como olhava para o seu corpo... Parecia desej-la, mas tudo no passara 
de uma mentira. Que traio! Como pudera engan-la de um modo to cruel?
   Eram apenas oito horas. Cedo demais para dormir, mas estava to abalada que era o que desejava fazer. Saindo do banheiro enrolada numa toalha para ir ao quarto, 
julgou ouvir o rudo de um carro.
   Imediatamente ficou alerta, esperando que algum tocasse a campainha da porta. Ouvia, quase sem respirar, tentando captar qualquer som estranho, mas o silncio 
parecia pesado.
   Nenhum barulho atrapalhava a calma da noite. Aflita, correu para o dormitrio e procurou abrir as pesadas venezianas.
   Olhou para o ptio. Nada parecia mover-se. A lua estava coberta por nuvens escuras. A brisa trazia o latido de um cachorro no vilarejo. Devia ter chovido, pois 
sentia o forte cheiro do pinheiral. Ficou parada junto  janela, procurando perceber algo, mas no havia nada ali.
   Com um suspiro, fechou as janelas e voltou para o quarto.
   Devia ser apenas a sua imaginao frtil. Afinal, era um absurdo pensar que Jaime viria atrs dela! Um homem que se casa com uma mulher para obter lucros financeiros 
s poderia ser muito frio e calculista.
   Na aflio para verificar o barulho do carro, no acendera a luz do dormitrio. Um raio de claridade, vindo da porta entreaberta do banheiro, mal iluminava as 
marcas dos seus ps molhados no cho encerado.
   Lembrou-se de que deixara a camisola no banheiro e foi apanh-la. Estava quase saindo do quarto, quando uma sombra apareceu na porta. Ela soltou um grito, paralisada 
de surpresa e medo. A silhueta de um homem encobria a luz que vinha de fora.
   - Jaime! - disse apavorada. Seu corpo tremia. Sem perceber, deu um passo para trs.
   Por um momento, imaginou que ele tivesse poderes sobrenaturais que fizeram com que se materializasse ali, diante da porta, bloqueando-lhe a nica sada. Sentiu 
um n na garganta. Quando o susto diminuiu um pouco, conseguiu balbuciar:
   - Como entrou?
   Ao v-lo sacudir as chaves diante dela, percebeu sua prpria estupidez. Era claro que ele tinha uma cpia das chaves. Todo aquele cuidado de verificar as trancas 
da porta e janelas havia sido perda de tempo.
   - O que est acontecendo, Shelley? - Ele parecia furioso. Como se atrevia a fazer tal pergunta? Avanou at o interruptor e acendeu a luz. Depois o encarou com 
raiva.
   - O qu?
   - Minha me contou-me tudo - disse, antecipando a sua pergunta. - E se voc tivesse tido um pouco de juzo, era o que deveria ter feito. Ela ficou muito triste 
e aflita, Shelley.
   - E voc acha que eu no fiquei? - Mas Jaime no pareceu perceber o sofrimento em sua voz.
   - Pelo modo como vinha se comportando nos ltimos dias, no sei porque estaria triste.
   - E foi esse o motivo que fez com que fosse procurar Sofia? - disse sarcstica. - No adianta, Jaime. Eu sei da verdade.
   - Sabe mesmo? Fui procurar Sofia para descobrir exatamente o que ela poderia ter dito  minha mulher para transform-la de uma noiva feliz e apaixonada num bloco 
de gelo. E agora eu sei... Foi por isso que fui a Lisboa. No sou tolo, Shelley. Sabia que ela devia ter dito alguma coisa para preocup-la. E se voc no queria 
contar-me o que era, ento ela teria de faz-lo. Esse era o motivo de eu estar no hotel com Sofia.
   - E para isso precisavam de um apartamento - disse com amargura.
   Jaime parecia furioso e sentiu medo. As coisas no estavam caminhando como imaginara. Pensou que haveria arrependimento, persuaso, desculpas, no essa raiva 
que parecia incendiar o espao existente entre eles.
   - O pai de Sofia  dono do hotel. Ela tem um apartamento l. Mora ali, Shelley. Agora vamos nos sentar e tentar falar com calma.
   No queria falar com ele. No queria ouvir nada que pudesse enfraquecer ainda mais suas defesas. Ele estava zangado, e isso ajudava a tornar suas explicaes 
plausveis. Como poderia confiar nele? Parecendo ler seus pensamentos, ele falou secamente:
   - Se tivesse confiado em mim, nada disso teria acontecido. Mas voc no confia, no ? No confia em ningum! No posso for-la a confiar, mas posso obrig-la 
a sentar-se e ouvir o que tenho para lhe dizer.
   - No quero ouvir nada, Jaime. - Virou-se de costas para ele, esperando que fosse embora. Se no partisse... Olhou nervosamente para o terrao, como se fosse 
um meio de fuga.
   - Mas tem que ouvir!
   Ele j estava mais controlado e sua voz soou fria.
   - Voc tem idia do quanto me fez sofrer esta semana, Shelley? Por que no me contou o que Sofia lhe disse?
   - Que ela era sua amante? Que se casou comigo porque desejava a vila e as terras? E se eu tivesse lhe contado, o que teria acontecido? Voc teria negado, e eu... 
- No conseguiu continuar.
   A voz de Jaime se elevou.
   - Como teve coragem de fazer isso, Shelley? Voc tem to pouca f em mim? Acha mesmo que eu poderia trair voc ou seu pai desse modo? A mulher que eu amo, e o 
homem que eu mais admirava e respeitava neste mundo?  assim que me v? Agora no me surpreendo que tenha hesitado tanto em casar-se comigo. Pensei que tivssemos 
algo raro e lindo para construir juntos. Achei que entendia suas hesitaes, mas estava enganado, no ? Eu no a conhecia! Voc no queria me amar, nunca quis.
   Aquelas palavras pegaram-na de surpresa. No era isso que Shelley estava esperando. Protestos talvez, mas com palavras doces, carcias, justificativas para que 
entendesse. Ele tinha razo: ela no o conhecia. A raiva que ele demonstrava era diferente do que se preparara para ouvir. Sentia-se incapaz de lutar contra ela, 
pois parecia ser provocada por uma grande dor e angstia.
   Eram as palavras de um homem profundamente apaixonado por uma mulher que o ferira alm do suportvel. Ela entendeu e olhava para ele espantada.
   - Voc tem idia do que sinto? - perguntou emocionado. - H menos de uma semana atrs, na igreja, voc fez promessas que nos uniam para sempre. Shelley, eu sabia 
que estava incerta, hesitante, at assustada, mas se eu soubesse que voc seria capaz de me julgar dessa maneira... - Ele suspirou, e seu rosto parecia abatido. 
- Uma mulher que no pode confiar em mim no  uma mulher que eu possa amar. - Aproximou-se dela, a luz do banheiro batendo-lhe no rosto.
   Parecia um homem prestes a perder o controle, capaz de qualquer violncia. Shelley estremeceu, apavorada com o que fizera.
   Naquele momento, tarde demais, imaginava como pudera ser to tola em acreditar no que Sofia lhe dissera. Mesmo que no pudesse acreditar no amor de Jaime por 
ela, deveria ter acreditado na admirao que ele tinha pelo seu pai. Via agora que ferira o seu orgulho e que teria de pagar por isso. Viu a amargura em seus olhos 
e falou com esforo:
   - Eu no podia suportar a idia de que voc no me quisesse, de que voc...
   - Oh, mas eu a amo sim, embora no desejasse isso... S que voc no estava enganada s nisso. - Aproximou-se mais, e ela nunca o vira assim. Olhava para ela 
com um misto de desejo e raiva. Ele parecia ameaador.
   - Eu nunca pensei em vender a vila para o pai de Sofia e se tivesse ficado o suficiente para encarar-me ao invs de fugir como uma covarde, eu poderia ter dito 
isso a voc. Sofia mentiu, Shelley.
   - Ela mostrou-me o contrato - disse com teimosia, tentando justificar-se. - Vi a sua assinatura.
   - Minha assinatura est num contrato relacionado com um negcio diferente com o pai dela. Deve lembrar-se que mencionei isso uma vez. - Sua voz era gelada. - 
Voc leu o contrato?
   - Como poderia? Estava escrito em portugus - disse zangada.
   - Claro!
   Sentiu medo diante do erro que cometera e tentou agarrar-se  lgica e  realidade. No previra que ele tentaria confundi-la para que acreditasse nele. E no 
esperava que fizesse isso com palavras. Esperava que seu ataque fosse sensual, para demover o seu corao vulnervel com o desejo que sentia por ele.
   Procurou manter a calma.
   - Se o que voc diz  verdade, ento Sofia mentiu para mim.  isso o que voc est dizendo. Mas por que ela mentiria, Jaime?
   - Porque me odeia. Sofia no queria que eu fosse apenas o amante, mas o marido dela. Como eu j lhe disse, ns temos um cdigo de moral muito severo nesta parte 
do mundo. Sofia tornou-se conhecida pelos seus inmeros amantes e casos. Antes ela queria chocar a sociedade, agora quer ser aceita por ela.
   - E, casando-se com voc, ela seria aceita?
   - Sofia enganou voc, Shelley, como se engana uma criana. Eu poderia ter trazido o sr. Armandes esta noite, pedido a ele que traduzisse o contrato para voc, 
e que confirmasse que fui eu que sugeri a seu pai para lhe deixar a vila no testamento. Mas para qu? Voc j fez sua escolha h uma semana atrs. Preferiu no acreditar 
que eu era inocente... que poderia haver uma explicao diferente daquela que Sofia lhe dera. Sabe por qu? Porque voc queria acreditar nela. Queria uma desculpa 
para fugir de mim.
   O que Jaime dizia era verdade. Podia ver com horror como fora injusta e preconceituosa. Queria dizer-lhe que a sua vulnerabilidade fora provocada pela prpria 
falta de confiana na capacidade de atra-lo, pela insegurana e medo de que ele no a amasse de fato, o que ela descobriria um dia, mas tarde demais. Queria lhe 
dizer tudo isso, mas, ao olhar para ele, no encontrava palavras.
   - O que aconteceu, Shelley? Voc acordou naquela manh e descobriu que, afinal, no queria casar-se comigo? Que me aceitava como amante, mas no queria aceitar 
o risco de um casamento, e ser a minha esposa?
   Olhou para ele e sentiu que algo mgico morrera, e por sua culpa. No adiantaria dizer-lhe a verdade. Se ele a amara um dia, matara esse amor com a sua falta 
de confiana e crueldade.
   Se as posies fossem invertidas, como se sentiria? Completamente trada.
   Ela afastou-se e evitou olhar para ele, mas isso pareceu enfurec-lo.
   - No me vire as costas!
   Agarrou seu brao e ela procurou soltar-se. Enquanto se debatia, ele aproximou-se mais e, quando a segurou, sentiu que a toalha comeava a cair.
   At aquele momento, esquecera-se de sua quase nudez. Mas agora estava consciente disso e no tinha coragem de mover-se. Qualquer movimento brusco, ou se Jaime 
tirasse a mo de sua cintura, a toalha cairia.... Sentindo a boca seca devido  tenso, procurava controlar-se.
   - Fique calma. No vou lhe fazer nada - ele disse. Havia amargura em sua voz, assim como rejeio. - No quero uma mulher que tenha de agarrar  fora, Shelley, 
no importa o que voc pensa de mim.
   O que estava pensando era que, sob a toalha, seu corpo estava cheio de desejo. Lembrou-se da noite em seu quarto, e os sentimentos ignoraram os motivos porque 
a segurava agora. Se fechasse os olhos, poderia rever as cenas da paixo e ternura que haviam vivido.
   Tivera que passar pela dor e pelo desespero para descobrir a intensidade dos seus sentimentos por Jaime, para reconhecer que quando havia amor como sentia, no 
existia lugar para orgulho ou receio.
   Percebeu que ele se afastava, retirando a mo que lhe prendia a cintura. Levantou os olhos para ele, dominada pelo desejo. Sem perceber, deu um passo em sua direo 
e a toalha caiu a seus ps.
   Ouviu uma exclamao abafada. E, quando tentou mover-se, tropeou na toalha.
   Jaime a segurou, evitando que casse, mas fez isso com os braos afastados para mant-la a distncia. Mesmo assim, seu corpo, abandonando o autocontrole, ouvia 
somente o desejo ardente do corao.
   - Faa amor comigo Jaime... Por favor...
   Ao dizer essas palavras com a voz trmula, mal podia acreditar que as pronunciara. E, aparentemente, nem mesmo ele. Sentia sua tenso e a presso das mos aumentou, 
mas ele no fez nenhuma tentativa para aproximar-se.
   O desespero tornava-a ousada. Soltou-se das mos que tentavam afast-la e encostou o corpo no dele. Sentiu-o estremecer.
   - Mas o que  isso, Shelley?
   Parecia zangado e, de repente, sentiu-se desajeitada e tola. O que esperava conseguir? Que ficasse entusiasmado com o desejo que demonstrou por ele?
   Envergonhada, tentou afastar-se, mas foi surpreendida pela sbita presso dos braos que a retiveram.
   - No, no vai fugir mais! - Sua voz estava rouca e ele a segurava de encontro ao peito. - O que esperava? Eu sou um homem, Shelley, e desta vez voc me provocou 
demais.
   Ele inclinou a cabea e, abraando-a possessivamente, colou os lbios aos dela. J a beijara antes, mas nunca com esta necessidade premente que chegava a machucar-lhe 
os lbios, forando-os a se abrirem para permitir que a lngua penetrasse.
   Shelley estremeceu. Mil razes lhe vinham  mente, lembrando-a de que no deveria estar ali; o corpo dela, porm, recusava-se a reconhec-las. Levantou os braos 
e colocou-os ao redor do pescoo dele; e quando Jaime levantou a cabea e olhou-a com uma expresso estranha, encostou-se ansiosa nele.
   - O que ? A minha rejeio a excita, Shelley?  isso? Torna-a ansiosa por fazer amor comigo? - Passava as mos pelo corpo dela, incendiando-lhe a pele e afastando 
a crueldade do que dizia.
   - Eu quero voc, Jaime - murmurou as palavras de encontro aos lbios dele, intercalando-as com beijos. - E voc me quer tambm. - E comeou a passar as mos pelo 
trax masculino sentindo que retesava os msculos num protesto mudo. Aquilo j no importava, perder o domnio sobre os prprios atos, e quando voltou a toc-lo, 
sentiu uma pequena chama de triunfo, ao perceber que comeava a corresponder.
   - Voc me deixa louco. Sabe disso, no ? - O tom da voz deveria assust-la, mas quando ele a tomou em seus braos e a levou at a cama, tudo o que sentia era 
um enorme desejo. - Eu sei que deveria resistir, mas no posso e no quero.
   Ele se afastou um pouco e, quando se despia, no tirava os olhos dela.
   Deitou-se e beijou-a, parecia lutar contra o desejo que o consumia. Aos poucos, porm, comeou a acariciar-lhe possessivamente as curvas suaves. No estava sendo 
terno como o fora na casa da condessa, mas Shelley se deliciava com a urgncia que sentia naquele toque. Era a prova cabal de que apesar de tudo ele ainda a desejava.
   O contato dos lbios ardentes em sua pele causava ondas de prazer dentro dela, levando-a a arquear o corpo contra o dele em desvairada splica. A presso da boca 
e a sensao quase dolorosa do desejo no satisfeito fazia com que estremecesse, pronunciando baixinho o nome do homem amado.
   Sem se conter, Shelley passou a acarici-lo tambm. Jaime ficou imvel, os olhos fechados, entregue... Era a imagem da volpia que lhe percorria as veias, gemendo 
sob o toque dela em seu corpo.
   Quando as mos de Shelley atingiram-lhe o sexo, e pararam, de sbito tmidas, ele suplicou com voz rouca:
   - Continue, Shelley. Toque em mim!
   Aquele pedido sensual afastou suas inibies e as mos continuaram seu trajeto...
   Depois ele se afastou um pouco, e ela olhou-o com adorao, querendo toc-lo novamente, mas esperou.
   Jaime recomeou a acarici-la e Shelley procurou-lhe a boca. Ele correspondeu apaixonadamente, fazendo-a suspirar.
   A raiva que sentira nele antes transformara-se em algo diferente: uma necessidade urgente de aplacar a paixo, de envolv-la numa teia de seduo e prazer que 
acabaria por imol-la. Suspirava ante as vagas do prazer que se avolumava em seu ntimo.
   Vagamente ouviu-o chamar seu nome, depois pronunciar palavras em portugus que no entendia.
   Jaime parecia determinado a enlouquec-la. No conseguia mais raciocinar. Agia pelo instinto.
   - Jaime, Jaime... - murmurava em delrio. - Oh, por favor, eu...
   - No, minha bela, ainda no... - ele sussurrou. - Quero v-la padecer deste doce suplcio.
   Impaciente, Shelley resolveu que no sofreria o castigo sozinha... Se Jaime estava pensando em faz-la suplicar para que a possusse, provaria de seu prprio 
veneno... Estava determinada a devolver na mesma moeda cada toque que recebesse.
   Jaime tentou impedi-la de aproximar-se, mas desvencilhou-se dele e encostou o rosto em seu peito, espalmando as mos na linha da cintura. Encostou os lbios no 
mamilo masculino e timidamente tocou-o com a lngua, encantada com o sbito arrepio de prazer que sentiu percorrer-lhe a pele. Hesitando, tomou-o em seus lbios, 
do mesmo modo como fazia com ela. Quase instantaneamente ele ficou imvel. Shelley achou que no gostara do que estava fazendo. Sentiu-se frustrada pela abrupta 
mudana que percebeu em Jaime; quis afastar-se, mas ele segurou-a. As mos prenderam-lhe a cabea.
   - No pare, Shelley, no pare...
   Com uma das mos acariciava-lhe os cabelos, com a outra pressionava-lhe a nuca. O corpo todo tremendo com as sensaes que ela despertava.
   Shelley passou a tremer tambm, contagiada pelo prazer que proporcionava. Foi ento que Jaime f-la deitar de costas sobre o colcho, afastando-lhe as mos do 
corpo e observando-a longamente.
   Havia algo de tremendamente ertico em estar deitada assim, to vulnervel diante dele. Inconscientemente, porm, tentou afastar-se da intimidade daquele olhar 
que parecia queim-la. Esboou um movimento para fugir, mas ele moveu-se rapidamente, prendendo-a com o peso do corpo. A sensao causada pelo contato do corpo dele 
f-la estremecer de excitao... Viu o brilho no olhar de Jaime e imaginou o que estaria sentindo. Parecia to srio. Sem se conter, ia perguntar:
   - O qu... - Mas sem conseguir terminar a frase, ficou olhando-o fixamente. Compreendeu que era chegado o momento de pagar pelo que deliberadamente provocara. 
Uma onda de medo a percorreu.
   - O que vou fazer? - ele concluiu por ela. - Primeiro, isto: - Afastou-se um pouco e seus lbios tocaram um mamilo e depois o outro numa leve carcia. Ele mantinha 
as mos nos braos de Shelley, impedindo-a de mover-se.
   Passou a lngua no vale dos seios, e abandonou-lhe os braos para continuar a explor-la. Deixou uma trilha de beijos na pele macia percorrendo-lhe o estmago, 
o umbigo...
   Shelley, imvel, observava as prprias reaes. A tenso voltou a crescer dentro dela. O calor queimando nas veias.
   As mos de Jaime desciam-lhe pelos quadris. Sentiu as pernas estranhamente fracas quando ele as afastou. Um arrepio percorreu-a quando a tocou intimamente.
   Embora houvesse adivinhado o que ele iria fazer, no estava preparada para a intensidade das sensaes que o contato despertou. Ficou dividida! Devia entregar-se 
ao deleite daquele toque ou interromp-lo? No queria ficar to vulnervel diante de algum, muito menos de Jaime.
   Ela suspirou, lutando para controlar as emoes conflitantes que lhe agitavam o ntimo.
   - Jaime, eu... eu no quero. 
   Ele encarou-a.
   - No quer ou est com medo?  isso, Shelley? No h nada para ter medo.
   Sua voz era suave, as palavras tentando acalm-la.
   Lentamente ele voltou a acarici-la. E Shelley soube que estava perdida, seu corpo traioeiro, como se tivesse vontade prpria, comeou a reagir.
   No se importou de ver suas ltimas defesas vencidas, no conseguia mais resistir quele apelo ertico... Gemeu descontrolada, abandonando-se ao calor da paixo. 
Movia o corpo ansiosamente, Jaime a estava conduzindo para uma vertiginosa escalada rumo ao prazer.
   Finalmente, quando tudo terminou e viu que ele lentamente a soltava, deitou-se ao seu lado. Pela primeira vez percebeu que enquanto ela atingira o auge da satisfao 
sexual, Jaime no compartilhara desse momento com ela.
   Uma sensao de fracasso envolveu-a, trazendo-lhe lgrimas aos olhos. Virou-se, frustrada, afastando-se dele.
   - Shelley, por que est chorando? - ele parecia muito preocupado.
   - Voc no me deseja, no ? - ela falou aos prantos, no podendo disfarar a amargura que lhe ia na alma. Ele a excitara e a satisfizera, mas saber que no a 
queria tornava efmero todo o prazer que sentira momentos antes. Fazia com que se sentisse diminuda em sua feminilidade recm-descoberta.
   - Por que diz isso?
   - Pensei que fosse bvio. - No conseguia encar-lo.
   - Shelley...
   - No minta para mim, Jaime. Voc me excitou, fez com que eu sentisse prazer, mas foi s isso, no foi? - Sentia-se subitamente muito humilhada. - Apenas quis 
me fazer provar o que poderia ter sido entre ns dois, mas j no me quer mais. O desejo acabou...
   Jaime obrigou-a a voltar-se para que pudesse encar-la. Suas mos seguravam-na com fora.
   -  claro que a desejo, Shelley, mas eu no quero machuc-la. Se a tivesse possudo agora, no conseguiria me conter e queria que voc sentisse prazer antes que 
eu tivesse que faz-la sentir dor. - Sua voz era muito meiga.
   - No quero que se contenha, eu... quero que faa amor comigo...
   Sentiu que ele ficara tenso e pensou por um instante que fosse afastar-se. Mas suas mos ainda a seguravam, e a pressionaram contra o colcho.
   -  o que voc quer? - ele perguntou, antes de beijar-lhe os lbios. - Quer que eu a possua, Shelley?  isso?
   Com a lngua passou a acariciar-lhe o contorno da boca. Shelley sentiu um n na garganta e o corao batendo em descompasso.
   - Sim - falou contra os lbios dele. - Sim, quero muito isso. Percebeu que ele se movia, sentindo o peso de suas coxas entre as suas.
   - Tem certeza de que  isso o que quer? - ele a encarava.
   - Sim... sim... Eu... o quero...
   Ele voltou a acarici-la, beijando-a possessivamente. Depois comeou a penetr-la devagar. Por um instante, o corpo de Shelley reagiu ante a dor sentida, maior 
do que ela supusera. Carinhoso, Jaime passou a beij-la e manteve-se imvel esperando que o desconforto dela passasse. Lentamente recomeou a mover-se, murmurando 
frases ininteligveis.
   A dor desaparecera; em seu lugar, Shelley comeou a sentir a excitao crescer, arqueou o corpo contra o dele, acompanhando-o na busca do prazer.
   Gemidos e sussurros pontilhavam aquele encontro apaixonado. Totalmente entregues  paixo que os dominava, haviam perdido a noo do tempo, do espao. S existia 
entre eles os limites do prazer...
   Ela no acreditaria que pudesse alcanar prazer maior que o que vivenciara instantes atrs... Mas agora via como se enganara. Quando Jaime repetiu-lhe o nome 
vezes seguidas, ela deixou a alma voar em xtase.
   Jaime deitou a seu lado e as respiraes foram serenando pouco a pouco.
   Lnguida, no queria afastar-se dele. Enroscou-se no abrigo que os braos msculos ofereciam. Queria pedir-lhe que compreendesse que tudo fora um terrvel engano. 
Que talvez fosse culpada por am-lo demais e no de menos, mas no conseguia raciocinar claramente, estava to cansada... e acabou adormecendo.


CAPTULO X
   
   Shelley acordou cedo. Seu corpo denunciava as mudanas que haviam ocorrido, antes que a mente tivesse tempo para assimil-las. Ela e Jaime tinham feito amor com 
uma paixo que nem imaginava que pudesse sentir. Adormecera em seus braos, mas agora estava sozinha.
   A apreenso fez com que despertasse completamente. Sentou-se na cama, puxando o lenol para cobrir-se, quando a porta se abriu.
   Jaime entrou trazendo uma xcara de caf. Sua expresso era sria quando olhou para ela,
   - Shelley, eu... quero me desculpar por ontem  noite. - Aquela no era a voz do amante que ainda ontem lhe dissera o quando a desejava e o prazer que ela lhe 
proporcionara. Parecia evitar encar-la. - No acontecer mais, Shelley. No teria agido assim se...
   - Se eu no tivesse implorado que fizesse amor comigo - ela disse. O orgulho era a nica coisa que lhe restava. Matara o amor de Jaime, e por isso o havia perdido. 
A dor que sentia agora era causada por uma falta de confiana no homem amado.
   - Gostaria que voltasse comigo para a quinta esta manh - ele falou, no fazendo comentrios sobre o que ela dissera. - H algumas coisas que devem ser resolvidas 
antes... antes que eu possa libert-la.
   Sua mo tremera ao pousar a xcara sobre o criado-mudo ou ela imaginara isso? Se estendesse a mo para toc-lo ser que ele reagiria como ontem  noite? Talvez. 
Mas no era somente uma reao sexual que ela queria, e sim aquilo que to precipitadamente jogara fora. Queria seu amor... que acreditasse nela... queria ter sua 
confiana.
   De sbito, as palavras dele atingiram-na como uma bofetada. Libert-la? O que significava aquilo? Como se escutasse seus pensamentos, ele continuou a falar.
   - Foi um erro apressar o nosso casamento. Eu devia ter tentado ensin-la a ter confiana em mim primeiro. Eu subestimei o dano que a sua av provocou e superestimei 
seus... sentimentos por mim.
   - Mas ontem  noite...
   - Ontem  noite no estvamos em nosso estado normal. Precisvamos nos libertar do que acontecera entre ns. Mas sexo no  uma base slida para o casamento, 
ao menos no para o casamento que eu quero - ele concluiu.
   -  Mas no podemos nos divorciar... - conseguiu dizer, apesar do n que sentia na garganta.
   - Estava pensando numa separao legal... Quando vim para c  noite pretendia falar sobre a anulao do nosso casamento, mas...
   Mas ela destrura essa chance. Shelley olhava para ele, desamparada. O que dizia no era nada alm do que ela havia decidido vinte e quatro horas antes. S que, 
naquele momento, sabia que no era isso o que queria, mas apenas a presena do homem que estivera com ela na noite anterior. O que poderiam ser um para o outro desde 
o incio do seu casamento, se tivesse tido coragem de confiar nele. Isso teria sido um ato de coragem e f. Mas ela no tinha tido nenhuma das duas e, por causa 
disso, agora estava sendo castigada. Que ironia! Sofia conseguira realizar o seu desejo. Destrura o casamento.
   No poderia deixar que terminasse assim. Deveria existir um meio de voltar os ponteiros do relgio, e apagar o que estava acontecendo.
   - Jaime, e se... eu ficar grvida?
   Uma sombra cobriu o rosto dele.
   - Eu no desejaria para meu filho a tristeza que acompanhou toda a minha infncia. As brigas dos pais so uma cruz que a criana no deveria ter de carregar. 
Voc sempre ter a minha ajuda financeira,  claro... No importa o fato de estar ou no grvida.
   Ele falava como se estivesse discutindo sobre um mvel. Tinha vontade de dizer-lhe que o amava. Que o desejava, mas no podia. Que adiantaria dizer isso agora? 
Toda a paixo que conhecera ontem  noite desaparecera. Ele estava distante e inatingvel.
   - Vai demorar um pouco para tomar todas as providncias. Enquanto isso, sugiro que voltemos para a quinta. Pedirei a minha me para ficar em Lisboa at que tudo 
esteja terminado. Ela ficar muito desapontada.
   - Quanto tempo... - sentiu os lbios secos e percebeu algo em seus olhos? Raiva? Dor?
   - Somente o tempo necessrio - ele disse, suscinto.
   - Jaime...
   - No. No quero falar sobre isso. Eu a enganei duas vezes, obrigando-a a realizar as minhas fantasias. No tinha o direito de faz-lo.
   - E agora sabe que no sou a moa que o meu pai pintou. No me deseja mais. Foi isso que aconteceu?
   Pronunciou tais palavras cheias de dor, mas ele no respondeu, simplesmente saiu do quarto.
   Se achara que a primeira semana do seu casamento fora uma agonia, durante a segunda descobriu o que tal palavra de fato significava. Jaime comportava-se como 
um estranho, frio e distante, a quem no se atrevia dirigir a palavra. Ele passava a maior parte do tempo no escritrio, e no tomava as refeies com ela. Estava 
dividida entre o desejo de implorar para que mudasse de idia e a necessidade de fugir. No suportava mais viver assim. Era muito pior do que a dor causada pelo 
cime que sentira de Sofia, porque desta vez era causada por sua prpria culpa.
   Perto do fim de semana, Jaime avisou-a da chegada do advogado.
   - Dever estar aqui no fim da tarde e pretendo discutir com ele sobre a melhor maneira de resolver o nosso problema. Infelizmente tenho uma reunio na associao 
dos vinicultores,  qual no posso faltar. Voc poderia receb-lo e fazer-lhe companhia durante a minha ausncia?
   Ele estava lhe pedindo para receber o homem que iria separ-los. Mas obrigou-se a dizer que sim.
   O sr. Armandes chegou s quatro horas. Shelley ofereceu-lhe um refresco e notou a preocupao em seu rosto enquanto a observava. No deveria estar parecendo uma 
noiva feliz. Ser que tinha idia do motivo pelo qual Jaime o chamara? Que importncia poderia ter isso agora? Logo ficaria sabendo de tudo, mas antes havia um assunto 
que ela queria resolver.
   Se o advogado ficou surpreso ao ouvir seu pedido para que transferisse a vila e as terras para Jaime, no o demonstrou. Comentou somente que estava feliz ao ver 
que ao menos uma pequena parte da costa estaria preservada da ignorncia dos especuladores e imobilirias de Lisboa.
   - Meu pai era absolutamente contra a idia de vender a terra para esses empreendimentos - disse Shelley, ao ouvi-lo mencionar o pai de Sofia.
   - E Jaime tambm. Ambos desejavam que a terra fosse conservada como sempre fora. Sei o que seu pai planejava cultivar videiras nas terras da vila como Jaime o 
fizera na quinta, mas faleceu antes de iniciar os seus projetos. Naturalmente, era sua inteno que a vila e suas terras ficassem para Jaime aps sua morte, mas 
Jaime sugeriu que ele deveria deix-las para a senhora.
   Era irnico que o advogado lhe contasse aquilo somente agora, quando j estava tudo perdido, mas a culpa era apenas dela. Sofia nunca poderia ter causado problemas 
se ela tivesse tido a coragem de acreditar no amor de Jaime. E agora era tarde demais.
   O advogado avisou-a de que os papis demorariam um pouco para serem preparados, mas ficariam prontos no final da semana. Depois, deu a entender que estava pensando 
que Jaime o chamara para discutir o assunto relacionado  quinta e  compra de terras. Shelley resolveu no dizer nada sobre a separao.
   Quando Jaime chegou, pediu licena e foi para o quarto preparar-se para o jantar. Lavou os cabelos e sentou-se diante da penteadeira para sec-los. Pelo espelho, 
viu a porta abrir-se e Jaime entrar. Imediatamente, desligou o secador. Seu corao batia descompassado, e ficou contente que desta vez estivesse vestindo um roupo 
que lhe cobria todo o corpo.
   Ele parecia preocupado e notou que seu rosto parecia abatido, como se tivesse passado noites insone.
   - Por que pediu que o sr. Armandes transferisse a vila para mim? Acabamos de conversar e ele me falou a esse respeito.
   Virou-se para no ter que encar-lo e para que no visse o sofrimento em seus olhos.
   -  melhor assim, Jaime. J que no vamos continuar casados, achei que voc cuidaria melhor das terras que pertenceram ao meu pai. No pretendo morar l.
   - O que voc pretende  se desvincular de tudo o que possa lembr-la de mim ou do nosso casamento - ele disse com uma violncia que a surpreendeu. - E se estiver 
grvida... tambm no vai querer um filho meu?
   A crueldade das palavras fez com que no pudesse conter mais as lgrimas.
   - Como pode dizer isso?  voc quem est me mandando embora.  voc que...
   Jaime foi at ela com uma expresso de surpresa em seu rosto e fez meno de toc-la.
   - No... no toque em mim - disse afastando-se. Instintivamente sabia que, se a tocasse, comearia a implorar para deix-la ficar. - Se o fizer, no conseguirei 
partir.
   Disse aquilo contra a vontade. Seu corpo tremia. Por que no pedira ao sr. Armandes para no contar a Jaime sobre a vila? Naturalmente ele agora no iria aceitar. 
No iria querer nada vindo dela, nem seu amor, nem...
   Ouviu a respirao entrecortada dele e olhou para o seu rosto. Parecia descontrolado.
   - Por Deus, Shelley. No olhe para mim desse jeito, a no ser que...
   Ele a desejava. Ele ainda a desejava! Podia ver isso em seus olhos.
   - Shelley, Shelley, o que est fazendo comigo? 
   Atraiu-a para si e beijou-a com desespero. Depois murmurou-lhe o nome com ternura e abraou-a com mais fora.
   - Jaime, por favor, no me mande embora. Sei que o magoei, o que fiz no tem perdo, mas eu...
   Ele soltou-a to abruptamente que ela quase caiu.
   - Mand-la embora? Mas do que est falando? Eu no a estou mandando embora. Estou lhe dando a liberdade.
   - Eu no a quero! Quero ficar com voc... ser sua esposa.
   - No diga isso, a no ser que seja verdade. - Sua voz parecia cheia de dor. - No posso suportar uma segunda rejeio, Shelley. Acho que morreria...
   Ela comeou a chorar. No por ela, mas por ele, e pela dor que lhe causara. Jaime tomou-a novamente nos braos. Apertava a com tanta fora que ela podia sentir-lhe 
o corao batendo.
   - Voc disse que ns tnhamos de nos separar - falou chorando. - Pensei que fosse porque no me amasse mais... porque eu o desapontei com minha falta de confiana.
   - No... no! Eu falei em separao porque pensei que fosse o que voc queria. Pediu-me para adiar o casamento, mas eu no quis ouvi-la. Eu precisava de voc. 
Fiquei apavorado quando voc resolveu voltar para Londres. Eu a desejava tanto que, ao pensar que poderia perd-la, fiquei alucinado. Eu no planejei a entrada da 
minha me no seu quarto naquela noite, mas quando apareceu no fiquei triste porque sabia que iria insistir no nosso casamento. Pensei que depois eu fosse conseguir 
convenc-la do meu amor, mas ao invs disso...
   - Eu dei ouvidos a uma mulher ciumenta e vingativa.
   - Teria dado a minha vida para no faz-la sofrer. Eu sabia que Sofia deveria ter tramado alguma coisa, mas quando voc me disse que no estava certa dos seus 
sentimentos, decidi que a nica maneira de saber o que acontecera seria forar Sofia a dizer a verdade.
   - E ela disse?
   - Ela ia contar-me depois que eu a ameacei de que faria tudo para chegar  verdade, mas a minha me veio ao apartamento e, antes que Sofia falasse, me contou 
tudo.
   - Pensei que eu o tivesse magoado tanto a ponto de matar o seu amor por mim.
   Jaime pegou suas mos e levou-as at os lbios com as palmas para cima, beijando-as.
   - Nada poderia fazer isso. Nenhum poder neste planeta ou fora dele.
   - Mas queria que eu fosse embora...
   - Porque pensei que era isso que desejava.
   - Mesmo depois de fazermos amor? 
   Ele suspirou.
   - Nunca duvidei que se sentisse atrada fisicamente por mim. Mas tinha medo de que voc me culpasse por isso tambm. Queria lhe dar uma chance de descobrir o 
que realmente sentia por mim, sem a confuso do desejo sexual.
   - E agora sabe que eu o amo.
   - Agora que sei, nunca mais vou deix-la partir.
   Afastou as dobras do roupo e introduziu as mos na abertura enquanto procurava seus lbios. Shelley esqueceu-se de que deveria se preparar para o jantar. Que 
provavelmente o Sr. Armandes deveria estar esperando por eles. Foi Jaime quem teve o bom senso de lembrar que j estavam atrasados.
   Aquele foi um dos jantares mais rpidos de que j tivera notcia, pensou Shelley com um sentimento de culpa, quando duas horas depois entrava no quarto, mas desta 
vez no estava sozinha. Jaime estava com ela. Fechou a porta, apagou a luz e tomou-a em seus braos de forma to passional que no deixou dvidas quanto aos seus 
sentimentos por ela.
   - Pobre Sr. Armandes - murmurou Shelley. - Fazer toda essa viagem por nada. E voc dizendo que tinha de dormir cedo, pois tinha que levantar-se de madrugada.
   - O que h de estranho nisso? - disse, beijando-lhe o pescoo e abrindo o zper do vestido.
   - Jaime, so apenas dez horas! - protestou Shelley.
   - J  to tarde assim? Ento no vamos mais perder tempo... - Beijou-a para evitar que falasse. Ela tremia em seus braos enquanto ele tirava seu vestido.
   - Na noite em que fizemos amor, eu deveria ter percebido que voc ainda me amava - ela disse, enquanto a conduzia para a cama.
   - H vrias maneiras de demonstrar amor, Shelley. Quando se entregou to sem reservas para mim, tambm no conseguiu perceber que o amor era o nico motivo que 
a faria agir assim.
   Ao ouvir o que ele dissera, parou de se sentir culpada e olhava-o cheia de amor enquanto ele se despia.
   Naquele momento, as palavras eram desnecessrias. A linguagem dos corpos se incumbiria de mostrar o amor que sentiam um pelo outro.

FIM
